Eleição na Ucrânia depende de cessar-fogo com a Rússia, diz jornalista
A realização de novas eleições na Ucrânia exige, na avaliação da jornalista Olga Rudenko, ao menos um cessar-fogo estável com a Rússia. Pesquisas indicam que a maioria da população prefere aguardar o fim da guerra ou garantias seguras antes de voltar às urnas.

Divulgação
Eleições adiadas sob lei marcial
A guerra na Ucrânia completa mais de quatro anos sem a perspectiva de um acordo definitivo de paz. Nesse período, o país deveria ter renovado o Parlamento e realizado eleições presidenciais, mas ambos os pleitos foram adiados por tempo indeterminado. A Constituição ucraniana impede a consulta eleitoral enquanto vigorar a lei marcial, cenário mantido pela invasão russa. Com isso, Volodymyr Zelensky, do partido Servo do Povo, continua no comando do país.
Para a jornalista ucraniana Olga Rudenko, a população compreende os riscos de organizar uma eleição durante o conflito. Além das dificuldades logísticas, um pleito poderia expor eleitores, mesários e instituições a ataques, além de abrir espaço para instabilidade política em um momento de emergência nacional. O consenso predominante, segundo ela, é esperar um acordo de paz ou, no mínimo, um cessar-fogo estável e acompanhado de garantias de segurança.
Ex-ministro reabre o debate
A discussão ganhou novo impulso em agosto, quando Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa, defendeu a retomada das eleições mesmo durante a guerra. Em pronunciamento público, ele afirmou que a Ucrânia enfrenta uma crise sistêmica de governança e que a normalização democrática não deveria ser adiada indefinidamente.
Fedorov deixou o governo em julho, seis meses após assumir a pasta, por ordem de Zelensky. O presidente justificou a demissão pela incapacidade do ministro de atuar em sincronia com as Forças Armadas. A decisão provocou manifestações incomuns de apoiadores de Fedorov, considerado uma figura popular no país. O pedido de eleições feito por ele recebeu reações divididas, mas teve o efeito de recolocar o tema no centro do debate público.
Zelensky teme divisão do país
Zelensky não anunciou uma rejeição permanente às eleições, mas considera a proposta inviável nas condições atuais. Em 23 de agosto, afirmou que realizar o pleito durante a guerra seria como provocar um tsunami político capaz de dividir a Ucrânia. Para o presidente, a prioridade deve ser conduzir o país ao fim do conflito e preservar sua independência e soberania.
Maioria prefere aguardar estabilidade
Levantamento do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, realizado entre 20 de julho e 3 de agosto, confirma a resistência da população a uma votação imediata. Entre os entrevistados, 57% defendem novas eleições somente depois de um acordo final de paz e do término completo da guerra. Outros 23% aceitam votar após um cessar-fogo com garantias confiáveis de segurança. Apenas 15% apoiam a realização do pleito antes do fim das hostilidades.
A confiança em Zelensky também ajuda a explicar a baixa pressão por eleições. Pesquisa feita entre 21 de agosto e 10 de setembro apontou que 54% dos ucranianos confiam no presidente, enquanto 41% não confiam. Rudenko atribui parte desse apoio à decisão de Zelensky de permanecer no país no início da guerra e à sua atuação como principal representante internacional da Ucrânia.
Apoio não significa ausência de críticas
A popularidade do presidente, porém, vem enfrentando desgastes relacionados à política interna. A demissão de Fedorov e outras decisões administrativas contribuem para a queda de aprovação registrada desde os momentos iniciais do conflito, quando Zelensky chegou a alcançar índices próximos de 80%.
Para Rudenko, a suspensão temporária das eleições não pode ser interpretada como uma autorização irrestrita para o presidente governar sem controle. A Ucrânia permanece sem uma democracia plenamente funcional, e a falta de urnas reduz a capacidade dos cidadãos de influenciar diretamente os rumos da governança. Em meio à guerra, duas posições convivem no país: uma defende menos críticas ao líder que conduz a resistência; outra sustenta que, justamente por concentrar poder em um momento delicado, Zelensky deve permanecer sob escrutínio constante.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








