Envelhecimento dos cacauais pode pressionar oferta e preços globais
Especialistas alertam que a idade avançada das lavouras de cacau pode reduzir a produtividade e comprometer o abastecimento mundial. Renovação gradual, genética e manejo adequado são apontados como caminhos para preservar a oferta.

Divulgação
O envelhecimento das lavouras de cacau pode se tornar um dos principais fatores de pressão sobre a oferta global da commodity nos próximos anos. Com a redução do vigor das plantas, a produtividade tende a cair e pode criar desequilíbrios entre produção e demanda, especialmente em regiões responsáveis por grande parte do abastecimento mundial. O alerta foi discutido durante a ExpoCacau 2026, em gravação do podcast “Do Cacau ao Futuro”, com produtores, consultores e representantes da Nestlé Brasil.
Ciclo produtivo exige renovação planejada
Os especialistas destacaram que o cacaueiro possui um ciclo de produção economicamente viável de aproximadamente 20 anos. Em condições favoráveis de solo, clima e manejo, a planta pode permanecer produtiva por 25 a 30 anos, mas a queda gradual na capacidade de produção precisa ser acompanhada pelo produtor. A recomendação é promover a substituição progressiva das plantas mais velhas, com renovação de cerca de 10% da área a cada ano, evitando perdas bruscas na safra.
Concentração da produção aumenta o risco
O problema ganha maior relevância porque a cadeia mundial depende fortemente de poucas regiões produtoras. A Costa do Marfim, maior produtora de cacau do mundo, apresenta um indicador de senilidade de 85% em seus plantios, conforme os dados apresentados durante o debate. Sem investimentos em renovação, a redução do potencial produtivo pode limitar a oferta internacional e ampliar a volatilidade dos preços, sobretudo se o consumo continuar crescendo.
Para compensar parte da perda associada às áreas envelhecidas, a análise apresentada estima que seria necessário incorporar entre 1,8 milhão e 2,2 milhões de hectares de cacau de alta performance. O desafio envolve não apenas a expansão das áreas cultivadas, mas também a adoção de variedades mais produtivas, controle de pragas e doenças, assistência técnica qualificada e manejo adequado do solo.
Manejo adequado eleva a produtividade
Na Fazenda Vila Opa, em Goiás, a comparação entre diferentes sistemas de cultivo mostrou o potencial de ganho com a renovação das lavouras. Enquanto áreas antigas e degradadas podem produzir entre 150 e 200 quilos de cacau por hectare, quadras de alta performance chegaram a 4.450 quilos por hectare. A diferença evidencia que a modernização das propriedades pode contribuir tanto para a competitividade dos produtores quanto para a segurança de abastecimento da indústria de chocolate.
No Brasil, o cenário reforça a necessidade de investimentos contínuos em pesquisa genética, recuperação de cacauais e disseminação de tecnologias agrícolas. Programas de sustentabilidade voltados ao setor buscam apoiar produtores na adoção de boas práticas, no acesso ao conhecimento técnico e na melhoria dos resultados econômicos. A renovação dos cacauais, portanto, deixou de ser apenas uma decisão administrativa da propriedade e passou a integrar uma estratégia fundamental para estabilizar a cadeia global do cacau.
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