Do campo à mesa: a ciência que desvenda mitos e guia o consumo alimentar
Em meio a um mar de informações e desinformações sobre o que comer, a ciência emerge como a principal bússola para os consumidores. Instituições como a Embrapa e especialistas da área trabalham para desmistificar rótulos, aditivos e conceitos populares sobre alimentação, promovendo escolhas conscientes e saudáveis, que consideram desde a origem do alimento até seu impacto cultural e social. A tecnologia e a pesquisa são aliadas essenciais para que o cidadão do interior e da cidade faça escolhas mais embasadas.

Divulgação
Em um cenário onde a quantidade de informações sobre alimentação é vasta e muitas vezes contraditória, o consumidor brasileiro se vê frequentemente perdido ao tentar discernir o que é de fato benéfico para sua saúde. Ingredientes que outrora faziam parte da dieta diária, como glúten e lactose, ou mesmo certos aditivos e produtos industrializados, passaram a ser tratados como vilões sem uma base científica sólida. Essa avalanche de dados, disseminada por diversas plataformas, pode facilmente transitar da informação para a pura desinformação, criando pânico e gerando hábitos alimentares inadequados.
O protagonismo do consumidor na pesquisa científica
Diante desse desafio, a ciência se posiciona como um farol, oferecendo bases seguras para as escolhas alimentares. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma das maiores referências do setor, dedica um portfólio de pesquisa e desenvolvimento especificamente ao protagonismo do consumidor. Segundo Maria do Socorro Bastos, pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical e presidente desse portfólio, uma das atribuições estratégicas é elaborar notas técnicas que subsidiem os posicionamentos da Empresa em temas de consumo, como já ocorreu com o apoio científico a projetos de lei sobre a composição e rotulagem de chocolates, baseados em pesquisas sobre o teor de cacau.
A equipe da Embrapa, composta por 14 pesquisadores de 13 centros de pesquisa em diversas regiões do país, também fornece subsídios cruciais para políticas públicas voltadas à alimentação. Clenio Pillon, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, enfatiza que o objetivo vai além do preço e do produto, incorporando critérios como saudabilidade, conveniência, sustentabilidade, ética, rastreabilidade e procedência desde o desenvolvimento das soluções tecnológicas. A Embrapa projeta agendas para as demandas alimentares dos próximos 20 a 30 anos, mostrando um olhar de futuro para o prato do brasileiro.
Desvendando rótulos e desmistificando o que está no prato
A engenheira de alimentos Giovanna Pisanelli, da equipe do aplicativo “Desrotulando”, aponta que o excesso de informações na mídia e redes sociais muitas vezes aterroriza o consumidor com dados inverídicos ou exagerados. Ela defende que é essencial ir além do que está em destaque na frente da embalagem, consultando sempre a tabela nutricional no verso. O “Desrotulando” facilita essa tarefa, permitindo ao usuário escanear produtos e acessar listas claras de ingredientes e valores nutricionais. O perfil do aplicativo no Instagram, com mais de 900 mil seguidores, também atua ativamente para esclarecer dúvidas e combater mitos, como os relacionados aos aditivos alimentares. Pisanelli esclarece que existem mais de 200 aditivos regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que seu uso, nas condições autorizadas, não implica risco à saúde.
Outra frase comum desmistificada por Pisanelli é “descasque mais e desembale menos”. Embora a intenção seja boa, ela ressalta que é preciso considerar o tempo e o poder aquisitivo dos consumidores. Alimentos processados nem sempre são vilões e demonizá-los é um erro. O segredo, segundo a especialista, reside em uma alimentação variada e equilibrada. Ela também refuta o mito de que qualquer alimento com mais de cinco ingredientes é ultraprocessado, citando a granola, que pode conter 22 ingredientes. As lupas (símbolos de advertência frontal nas embalagens), que indicam alto teor de nutrientes a serem consumidos com moderação, são vistas como um grande avanço regulatório, apesar da necessidade de melhor visualização, já no radar de revisão da Anvisa.
Aspectos históricos, culturais e sociais que moldam o consumo
Leticia Moreira Casotti, professora do Instituto COPPEAD de Administração da UFRJ, traz uma perspectiva mais ampla ao consumo, afirmando que o consumidor é moldado por aspectos históricos, culturais e sociais. As escolhas alimentares carregam significados construídos ao longo do tempo, muitos deles tão enraizados que passam despercebidos. A máxima “eu sou o que eu como” é simplista para um sistema tão complexo, que varia conforme comunidades e épocas. Casotti reforça que, para a Embrapa, é fundamental estar próxima aos consumidores, compreendendo seus hábitos e as camadas ocultas que os guiam. A adoção de uma inovação não depende apenas de características objetivas do produto, mas esbarra em valores, tabus e na relação cultural com os alimentos. Por isso, a cocriação de soluções tecnológicas entre ciência e população é vista como essencial no cenário atual.
Novas tendências: as canetas emagrecedoras e seus efeitos no consumo
O cenário do consumo alimentar continua em constante evolução, com novas tendências surgindo e impactando hábitos. Hellen Maluly, professora das Faculdades Oswaldo Cruz (FOC), destaca o surgimento dos medicamentos agonistas de GLP-1 – como semaglutida, liraglutida e tirzepatida –, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Embora utilizados no tratamento de diabetes e obesidade, esses medicamentos começam a influenciar as escolhas e padrões de consumo de alimentos, gerando um novo panorama a ser compreendido pela ciência e pela sociedade. A complexidade do ato de comer, portanto, exige uma abordagem multidisciplinar e atenta às constantes transformações que afetam a vida no campo e na cidade.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








