Líderes religiosos criticam fala de Lula sobre Igreja Católica
Bispos e a Frente Parlamentar Católica repudiaram declarações de Lula que relacionaram as dificuldades da Igreja Católica à manutenção do celibato e à restrição da ordenação de mulheres.

Divulgação
Bispos católicos e parlamentares ligados à Frente Parlamentar Católica criticaram declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o celibato sacerdotal e a ordenação de mulheres. A reação ocorreu após o presidente comentar, durante encontro religioso no Palácio do Planalto, que a Igreja Católica continuará enfrentando dificuldades enquanto mantiver essas regras.
Comentário durante encontro no Planalto
A fala foi feita em 16 de setembro de 2026, durante reunião com integrantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e convidados dos Estados Unidos e de Cuba. Lula voltou a se manifestar sobre a organização de diferentes religiões e destacou mudanças adotadas por igrejas evangélicas em comparação com normas católicas.
Segundo o presidente, a Igreja Evangélica ganhou espaço na sociedade brasileira porque permite maior participação feminina e não mantém o celibato nos mesmos termos. “Enquanto a Igreja Católica não acabar com o celibato e permitir que as mulheres possam ser padres, bispas, a gente vai ver a Igreja Católica passar dificuldades”, afirmou.
Bispos rebatem declaração do presidente
Dom Devair Araujo da Fonseca, bispo da Diocese de Piracicaba, respondeu em vídeo durante uma celebração religiosa. Para ele, representantes políticos deveriam se concentrar nos problemas do país em vez de indicar mudanças na doutrina das igrejas. “Tentam falar até do celibato dos padres, quando deviam estar cuidando do país. Estão cuidando muito mal”, disse.
Dom Devair também pediu aos fiéis que tivessem “consciência na hora de apertar os botões na urna” e não escolhessem candidatos que, em sua avaliação, ameaçassem a liberdade religiosa. A declaração adicionou um componente eleitoral ao debate já iniciado no Planalto.
Dom Adair José Guimarães, bispo da Diocese de Formosa, também criticou o comentário. Ele afirmou não se sentir intimidado e classificou como comum a tentativa de líderes “apateístas”, ou indiferentes a Deus, de interferir em diferentes áreas da vida social. O bispo ainda repetiu uma crítica atribuída ao arcebispo do Rio de Janeiro dom José Eugênio Sales, que classificava Lula como “caótico, apostático e romântico”, em referência irônica à forma como o presidente se apresenta como católico.
Frente Católica defende autonomia das religiões
A Frente Parlamentar Católica da Câmara dos Deputados divulgou, em 18 de setembro, uma nota de repúdio assinada pelo deputado Luiz Gastão (PSD-CE). O texto afirma que questões como o ministério ordenado e o celibato sacerdotal pertencem à vida, à tradição e à doutrina da Igreja Católica e não podem ser tratadas apenas como modelos organizacionais comparáveis aos de outras religiões.
Os parlamentares destacaram que o Estado brasileiro é laico e que essa condição deve garantir a liberdade de todas as confissões religiosas. Para a frente, autoridades públicas podem dialogar com diferentes igrejas, mas precisam respeitar a autonomia de cada tradição para definir sua doutrina, sua disciplina e sua organização interna.
Fala reacende debate sobre religião e política
A controvérsia evidencia a tensão entre a liberdade de manifestação de autoridades públicas e os limites impostos pelo respeito à autonomia religiosa. Enquanto Lula apresentou o celibato e a restrição à ordenação de mulheres como fatores que dificultam a atuação da Igreja Católica, os líderes religiosos consideraram a comparação inadequada e redutora.
O episódio também amplia o debate sobre o papel do Estado laico em uma sociedade religiosamente plural. A laicidade não impede críticas ou manifestações pessoais sobre religião, mas exige que o poder público não trate uma confissão de maneira privilegiada nem pretenda determinar a organização interna de outra.
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