Romi-Isetta completa 70 anos como primeiro carro produzido em série no Brasil
Lançada pela Romi em 1956, a Isetta marcou a entrada do país na produção automobilística em série. Pequeno, econômico e de design peculiar, o microcarro simbolizou a transição do Brasil de uma economia rural para uma nação com ambições industriais.

Divulgação
A Romi-Isetta completa sete décadas como o primeiro automóvel produzido em série no Brasil. Lançado em um período de intensas transformações econômicas, o microcarro unia design compacto, baixo consumo de combustível e uma proposta ousada: oferecer mobilidade individual em um país ainda predominantemente rural, mas cada vez mais interessado em se industrializar.
Da Itália para o interior de São Paulo
A história começou em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, onde Américo Emílio Romi transformou uma pequena oficina fundada em 1929 em uma indústria de destaque nacional. Ao lado de Carlos Chiti, seu enteado e sócio, Romi produziu máquinas agrícolas, tornos e o primeiro trator fabricado no país, o Toro, antes de entrar no segmento automobilístico.
Após importarem duas unidades da Isetta, criada pela italiana Iso Autoveicoli, Romi e Chiti desmontaram os veículos para estudar sua construção. Convencidos de que o projeto poderia ser adaptado ao mercado brasileiro, viajaram à Europa em 1955 e conseguiram a concessão para fabricar o modelo no país.
Um carro pequeno para um país em transformação
A Isetta chamava atenção pela porta frontal única, que dava acesso a um habitáculo bastante compacto. O banco acomodava dois adultos e uma criança, enquanto o motor monocilíndrico de dois tempos, com 198 cm³ e 9,5 cv, ficava na traseira. A transmissão manual de quatro marchas permitia velocidade máxima próxima de 85 km/h e consumo estimado em 26 km/l.
O projeto combinava simplicidade mecânica e economia, características consideradas adequadas tanto à Europa do pós-guerra quanto ao Brasil dos anos 1950. Para uma indústria nacional ainda em formação, porém, o maior desafio não era apenas montar o veículo, mas desenvolver fornecedores e ampliar gradualmente o conteúdo produzido no país.
Produção nacional e estreia nas ruas
A primeira Romi-Isetta brasileira deixou a fábrica em 30 de junho de 1956. Emílio Romi conduziu o carro acompanhado de Olímpia, diante dos operários que participaram de sua produção. O lançamento oficial ocorreu em setembro, quando uma frota percorreu o Centro de São Paulo em uma apresentação organizada por Carlos Chiti.
A campanha publicitária em jornais e revistas ajudou a divulgar o modelo, que também apareceu na TV Tupi e na série Alô, Doçura!, com Eva Wilma e John Herbert. A produção movimentou empresas nacionais de baterias, molas, chassis, amortecedores, pneus, vidros, estofamentos e demais componentes, criando uma cadeia de fornecedores em torno da Romi.
Evolução técnica e encerramento da produção
Em 1959, surgiu a Romi-Isetta 300, com mudanças estéticas, interior redesenhado e motor BMW de quatro tempos e 298 cm³. A potência aumentou cerca de 40%, chegando a aproximadamente 13 cv, enquanto a nacionalização do veículo passou de 70% para 78%.
O fim da produção, em 1961, veio após as regras do Grupo Executivo da Indústria Automobilística, o Geia, passarem a exigir carros com pelo menos duas portas e capacidade para quatro passageiros. Sem acesso aos incentivos fiscais e aos subsídios de importação, o microcarro perdeu espaço antes que pudesse consolidar uma produção de maior escala.
Um legado além das pistas
Mesmo com apenas alguns anos de fabricação, a Romi-Isetta deixou uma marca permanente na história automotiva brasileira. O modelo demonstrou que empresas do interior de São Paulo eram capazes de dominar tecnologias complexas, formar fornecedores e participar da modernização industrial do país.
Para a Romi, o projeto abriu caminho para a consolidação como uma indústria centenária reconhecida pela produção de máquinas e equipamentos. Para o Brasil, a Isetta permanece como símbolo de uma fase decisiva, quando o país começava a substituir suas ambições agrícolas por uma economia industrial cada vez mais diversificada.
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