Pistas de corrida viram laboratório de combustíveis sustentáveis
Categorias nacionais e internacionais usam competições para testar biocombustíveis em condições extremas e avaliar sua aplicação em veículos de produção. No Brasil, etanol, biodiesel e novas misturas ganham espaço com apoio direto do agronegócio.

Divulgação
As pistas de corrida deixaram de ser apenas palco de disputa por velocidade e passaram a funcionar como laboratórios para combustíveis de menor emissão de carbono. Em motores levados ao limite, fornecedores conseguem avaliar resistência, rendimento e comportamento térmico em poucas horas de treino e prova. As categorias, por sua vez, precisam reduzir impactos ambientais sem abrir mão de performance, segurança e competitividade.
Resultados das pistas podem chegar aos veículos de produção
Para a indústria, o ambiente das corridas permite acelerar o desenvolvimento de tecnologias que ainda precisam ganhar escala antes de alcançar caminhões, máquinas agrícolas e automóveis comuns. Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, resume a estratégia: o combustível é testado na competição até que esteja preparado para produção em maior volume e uso nas ruas.
A relação com o agronegócio está na origem da matéria-prima. Soja, gordura animal, óleo de cozinha usado, cana-de-açúcar e outras biomassas podem substituir parte dos derivados de petróleo. Gonçalo Pereira, pesquisador de energia da Universidade Estadual de Campinas, avalia que o Brasil tem condições favoráveis para ampliar a bioenergia, inclusive com o aproveitamento de áreas degradadas que podem retornar à produção.
BeVant estreia na Copa Truck com matéria-prima agrícola
A brasileira Be8 tornou-se fornecedora oficial da Copa Truck e passou a abastecer todas as equipes com o BeVant, produzido pela bidestilação do biodiesel. O combustível é fabricado em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde a empresa também produz biodiesel a partir de soja, gordura animal e óleo de cozinha usado. A soja representa 70% da matéria-prima utilizada.
Segundo a companhia, o produto foi desenvolvido para substituir integralmente o diesel em veículos pesados e máquinas agrícolas, com redução de emissões de até 99% em comparação com a mistura formada por 15% de biodiesel e 85% de diesel. Nas pistas, o BeVant enfrenta altas rotações, cargas térmicas elevadas e esforço contínuo, gerando dados para aprimorar o produto.
O contrato com a Copa Truck foi firmado por quatro temporadas. O CEO da Be8, Erasmo Carlos Batistella, afirma que os caminhões de corrida usam o mesmo combustível vendido a outros clientes. A exposição nacional, segundo ele, aproxima transportadoras, montadoras, concessionárias e empresas do setor agroprodutivo.
Competição aproxima automobilismo e agronegócio
A mudança também interessa à Copa Truck. O regulamento da categoria passou a prever controle de emissões durante treinos e corridas, e a organização registra ganhos ambientais sem perda de desempenho. A aproximação com o agro ganhou força inclusive no patrocínio, com a entrada da ATTO Sementes na competição.
O Brasil já usou as pistas para testar alternativas ao petróleo. Durante a crise petrolífera dos anos 1970, o etanol foi adotado em corridas nacionais. Em 7 de setembro de 1979, o Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, sediou o Festival do Álcool, com 13 baterias de diferentes categorias. Pilotos e equipes avaliaram positivamente o experimento, e apenas Stock Car e F-1300 não registraram redução nos tempos de volta em relação à gasolina.
Etanol já faz parte das categorias nacionais
Nas competições administradas pela Confederação Brasileira de Automobilismo, NASCAR Brasil, Copa Hyundai HB20, Kartcross, Autocross e Turismocross utilizam etanol hidratado. O Campeonato Brasileiro de Endurance trabalha com uma mistura de 50% de gasolina e 50% de etanol. Categorias que ainda usam gasolina, como Stock Car, Porsche Cup e Fórmula 4, deverão seguir a nova regulamentação que autorizou elevar a participação do etanol para 32%.
FIA busca neutralidade de carbono até 2030
O movimento também é internacional. A Federação Internacional de Automobilismo pretende neutralizar as emissões de carbono de competições e operações até 2030. Em 2021, o European Truck Racing tornou-se a primeira categoria da entidade a adotar HVO 100, um biodiesel renovável. Para a FIA, as corridas devem acelerar inovações que possam ser aplicadas fora das pistas.
O desafio agora é transformar testes bem-sucedidos em soluções disponíveis em escala, com desempenho confiável e custos compatíveis com frotas reais. Nesse percurso, cada volta cronometrada ajuda a medir não apenas a velocidade dos pilotos, mas também o avanço da transição energética no transporte e no agronegócio.
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