Programas sociais criam receio na contratação, avalia setor agropecuário
A CNA afirma que o medo de perder benefícios sociais reduz a disposição de candidatos para aceitar empregos formais no campo. Entidade propõe integração de cadastros, capacitação e manutenção temporária do benefício durante a transição para o mercado de trabalho.

Divulgação
O receio de perder programas sociais tem sido apontado pelo setor agropecuário como um dos obstáculos à contratação formal de trabalhadores rurais. Para representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o problema exige uma política de transição que reduza o risco para quem deixa o benefício e passa a receber salário.
Recusa de vagas e dificuldade de contratação
Em entrevista realizada em Brasília em 9 de setembro de 2026, o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, defendeu a revisão dos mecanismos de inserção produtiva dos beneficiários. Segundo ele, os programas sociais são necessários para quem depende desse apoio, mas precisam ser articulados com ações que facilitem o ingresso e a permanência no mercado formal.
Um levantamento da entidade indica que 95% dos produtores rurais entrevistados enfrentaram dificuldades para contratar. Entre os casos registrados, 63% envolveram candidatos que recusaram vagas por temer a perda do Bolsa Família. Os números revelam a percepção do setor sobre um impasse que combina proteção social, oferta de mão de obra e formalização.
Impactos no planejamento das propriedades
A escassez de trabalhadores já interfere no calendário agrícola. Produtores podem atrasar o plantio e a colheita ou reduzir atividades que exigem mais mão de obra, como fruticultura e horticultura. Em alguns casos, a tendência é migrar para culturas mais mecanizadas, incluindo soja, milho e algodão.
Lucchi relaciona o quadro também à redução da população rural e ao aumento da escolaridade. Segundo o dirigente, os salários no campo cresceram acima da média observada em atividades urbanas, e muitos empregadores passaram a oferecer benefícios adicionais para atrair e manter funcionários.
Proposta de transição por até dois anos
A CNA defende a integração dos cadastros públicos das três esferas de governo para identificar sobreposições, inconsistências e fraudes no pagamento de benefícios. A entidade também propõe ampliar programas de capacitação e criar parcerias com empresas interessadas em contratar beneficiários.
A principal medida apresentada é permitir que o trabalhador receba, temporariamente, o benefício social e a renda do emprego formal. O período sugerido varia de um a dois anos e teria o objetivo de dar segurança ao trabalhador durante a adaptação à nova função.
Demanda por empregos permanentes
Embora parte do trabalho rural continue sazonal, a intensificação das atividades no campo aumentou a procura por vínculos permanentes. A realização de até três safras anuais em determinadas regiões mantém a demanda por trabalhadores ao longo do ano e reduz a dependência de contratações concentradas apenas nos períodos de plantio e colheita.
O desafio será conciliar proteção social, controle dos gastos públicos e expansão do emprego formal. Para o setor agropecuário, uma transição assistida pode aproximar beneficiários das vagas disponíveis. Para os trabalhadores, a garantia temporária de renda pode tornar a mudança menos arriscada, desde que acompanhada de critérios claros e oportunidades reais de permanência.
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