Renovação de 2018 trocou metade da Câmara, mas preservou elite no poder
Estudo acompanhou 3.764 deputados entre 2003 e 2024 e mostra que a chegada de 243 novatos renovou a base da Câmara, mas não alcançou o grupo que concentra relatorias, presidências de comissões e influência sobre a tramitação das propostas.

Divulgação
A eleição de 2018 promoveu uma renovação expressiva na Câmara dos Deputados, mas não desmontou a estrutura de poder formada no interior da Casa. Dos 513 parlamentares eleitos, 243 eram estreantes, o que representou 47,3% da bancada. O percentual ficou bem acima da média de 37% registrada nas eleições anteriores, entre 1994 e 2014.
Renovação concentrada na base da Câmara
O resultado deu força ao discurso antipolítico que marcou aquele pleito, ao apresentar a inexperiência como virtude e prometer afastar os políticos profissionais das decisões nacionais. Uma análise do INCT ReDem, no entanto, indica que a mudança foi mais profunda na composição da base do que no núcleo responsável pelos principais cargos legislativos.
A pesquisa acompanhou 3.764 deputados que exerceram mandato entre 2003 e 2024. Para avaliar a permanência e a influência de cada parlamentar, os pesquisadores criaram o Índice de Profissionalização Parlamentar, o IPP. A medida considera tempo de mandato, cargos ocupados, atuação em funções de comando e disposição para continuar na Câmara.
Cargos de comando concentram poder legislativo
Ser um político profissional não significa apenas ter longa vida pública ou passagem por outros cargos eletivos. O conceito usado no estudo identifica parlamentares que construíram trajetória dentro da Câmara e ganharam acesso a posições estratégicas, especialmente relatorias e presidências de comissões permanentes.
Esses cargos têm peso decisivo na tramitação das propostas. O relator define trechos do texto que serão votados, pode incluir ou retirar pontos do projeto e controlar o ritmo da análise. Já o presidente da comissão organiza a pauta e influencia quais matérias avançam antes de chegar ao plenário.
Elite se manteve enquanto o deputado típico mudou
A comparação entre média e mediana do índice revelou um movimento específico a partir de 2018. A entrada de muitos novatos aumentou a presença de parlamentares menos integrados às estruturas internas, reduzindo o nível de profissionalização do deputado típico. Ao mesmo tempo, a média geral permaneceu sustentada pelos congressistas mais experientes e instalados no topo da Casa.
Esse distanciamento mostra que a renovação eleitoral não atingiu da mesma forma todos os níveis da Câmara. A base mudou de forma relevante, mas a elite parlamentar preservou tempo de serviço, cargos institucionais e capacidade de influência sobre negociações partidárias.
Assim, a eleição de 2018 alterou quem ocupou as cadeiras, mas não necessariamente quem comandou as decisões. O episódio evidencia a diferença entre renovar mandatos por meio do voto popular e transformar as hierarquias internas construídas ao longo de várias legislaturas.
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