Norte tem baixa representação em pesquisas eleitorais, avalia especialista
A cientista política Naiara Alcantara alerta que a escassez de levantamentos no Norte dificulta a compreensão do eleitorado regional. Ela destaca diferenças entre os Estados, a tensão entre desenvolvimento e meio ambiente e os limites da representação política.

Divulgação
A cientista política Naiara Alcantara avalia que o eleitorado da região Norte ainda ocupa espaço insuficiente nas pesquisas de opinião e nos levantamentos eleitorais. Para ela, a baixa presença de empresas dedicadas a produzir dados na região dificulta a compreensão das preferências, prioridades e mudanças no comportamento dos eleitores nortistas.
Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA), Alcantara pesquisa comportamento político e opinião pública. Sua análise aponta que a escassez de estudos locais pode reforçar interpretações simplificadas sobre uma das regiões mais diversas do país.
Norte não pode ser tratado como bloco único
A especialista destaca que o Norte reúne diferenças econômicas, sociais e territoriais importantes. Embora apresente maior presença de eleitores jovens e de baixa renda, a região também possui particularidades em cada Estado e município. Por isso, tendências observadas em Belém ou em uma capital não podem ser automaticamente aplicadas a todo o território regional.
Questões como a agenda ambiental e os efeitos das mudanças climáticas atravessam diferentes grupos sociais, mas podem receber pesos distintos no debate eleitoral. A relação entre desenvolvimento econômico, geração de emprego e preservação ambiental tende a ocupar lugar central em Estados marcados pela presença de florestas, comunidades tradicionais e grandes projetos de infraestrutura.
Meio ambiente preocupa, mas não determina o voto
A exploração de petróleo na Margem Equatorial ilustra a tensão entre crescimento econômico e conservação ambiental. Alcantara observa que grandes projetos de infraestrutura ou de exploração de recursos naturais provocam impactos que precisam ser considerados, sem que exista uma resposta simples para conciliar todas as dimensões envolvidas.
Levantamentos sobre valores ambientais desenvolvidos na UFPA indicam preocupação com o aquecimento global e com a preservação da natureza. Segundo a cientista política, esse sentimento aparece entre eleitores de diferentes campos, inclusive entre apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro. No entanto, a preocupação declarada não necessariamente se transforma em preferência eleitoral.
Força de Lula varia entre os Estados
A vantagem de Lula entre eleitores do Norte, apontada em pesquisas, está relacionada a fatores como o perfil socioeconômico da população e a presença de políticas sociais. A força do petista, contudo, não é uniforme. O desempenho eleitoral muda conforme o Estado, o contexto local e a disputa em cada eleição.
Diversidade social nem sempre gera representação
Alcantara também alerta que a pluralidade étnica e social da região nem sempre se reflete na política institucional. A presença de grupos diversos entre candidatos e ocupantes de cargos públicos não garante, por si só, a representação de seus interesses. Esse processo começa antes do voto, na seleção de candidaturas realizada pelos partidos.
A participação de mulheres e de líderes indígenas na política paraense ganhou destaque, mas a especialista questiona em que medida o acesso ao poder resulta em mudanças concretas para esses grupos. A representatividade, portanto, precisa ser analisada pelas propostas, alianças e decisões tomadas durante os mandatos.
Migração e redes sociais influenciam o debate
A presença de imigrantes venezuelanos, especialmente em Roraima, também passou a influenciar discussões políticas no Norte. Segundo Alcantara, grupos ultraconservadores usam redes sociais para explorar temas migratórios e disseminar discursos de intolerância, embora esse comportamento não possa ser atribuído à maioria dos eleitores.
Para a cientista política, a convivência entre diferentes grupos pode contribuir para mudanças na cultura política regional. Ampliar a quantidade e a qualidade das pesquisas eleitorais no Norte é considerado essencial para registrar essas transformações e evitar que a região seja compreendida a partir de generalizações.
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