Coreia do Norte usa receitas da guerra para financiar armamentos
Receitas estimadas entre US$ 7,7 bilhões e US$ 14 bilhões, obtidas com o envio de tropas e material para a Rússia, ampliam os investimentos civis e militares da Coreia do Norte. Especialistas alertam, porém, para problemas de manutenção e para a dependência de um fluxo financeiro ligado à guerra na Ucrânia.

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Kim Jong-un direciona parte das receitas obtidas com a participação da Coreia do Norte na guerra da Ucrânia para acelerar projetos civis e militares que o país não conseguia bancar em escala semelhante durante anos de isolamento e sanções internacionais.
Receitas relevantes para uma economia limitada
O Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul estima que Pyongyang tenha recebido da Rússia entre US$ 7,7 bilhões e US$ 14 bilhões em ajuda financeira e benefícios econômicos ao longo de três anos, em troca do envio de soldados, armas e munições. A quantia é expressiva diante de um Produto Interno Bruto estimado em US$ 26,6 bilhões em 2024.
Parte dos recursos sustenta a Política de Desenvolvimento Regional 20 x 10, anunciada em 2024. O programa prevê a construção de instalações industriais modernas em 20 cidades por ano durante uma década, com o objetivo declarado de melhorar as condições de vida fora da capital. Também ganham impulso projetos de hospitais, conjuntos habitacionais rurais e novos bairros em Pyongyang.
Observadores avaliam que os benefícios permanecem concentrados nas elites e nas áreas mais próximas do centro político. A Coreia do Norte consegue erguer grandes obras, mas enfrenta dificuldades históricas para manter equipamentos, hospitais e fábricas funcionando de forma regular. A falta de medicamentos, peças e insumos já deixou instalações concluídas sem utilização adequada por longos períodos.
Expansão do programa nuclear
Uma parcela relevante do dinheiro também segue para o setor militar. A Agência Internacional de Energia Atômica informou ter identificado uma nova instalação de enriquecimento de urânio no Complexo Nuclear de Yongbyon, equipada com cerca de 28 cascatas de centrífugas.
Segundo a agência, a estrutura poderá produzir aproximadamente 85 quilos de urânio altamente enriquecido por ano, quantidade estimada como suficiente para a fabricação de quatro ogivas nucleares. A ampliação ocorre enquanto Pyongyang aprofunda a cooperação estratégica com Moscou e reduz o impacto prático das sanções internacionais.
Imagens de satélite também indicam modernização dos portos de Nampo e Chongjin para ampliar a produção de navios de guerra. Em evento naval em Wonsan, Kim apresentou o destróier Kang Kon, de 5 mil toneladas, anunciado pelo regime como capaz de lançar armas nucleares e realizar ataques de retaliação.
Infraestrutura a serviço da aliança com Moscou
Estradas, portos, pontes e conexões ferroviárias recebem investimentos para facilitar o transporte de tropas, armamentos, tecnologia militar, energia e produtos de consumo entre os dois países. A inauguração de uma ponte rodoviária sobre o rio Tumen, com áreas alfandegárias e de armazenagem em construção, simboliza o avanço dessa integração.
A nova rota deve aumentar o intercâmbio por caminhões, reduzir custos logísticos e oferecer uma alternativa às restrições impostas pelas sanções. Muitos projetos haviam começado antes da pandemia, mas enfrentaram paralisações durante o fechamento das fronteiras norte-coreanas.
Crescimento desigual e risco pós-guerra
Analistas avaliam que a capital e algumas cidades próximas à fronteira com a China apresentam sinais de recuperação, impulsionados pelo comércio com a Rússia e pelo retorno de receitas associadas ao conflito ucraniano e ao cibercrime. O interior, no entanto, continua estagnado e distante dos investimentos exibidos pelo regime.
O principal ponto de atenção é a duração desse ciclo. Se a guerra na Ucrânia terminar e os pagamentos russos diminuírem, Pyongyang pode perder uma fonte vital de divisas. Uma queda brusca após a ampliação das expectativas econômicas poderia aumentar as dificuldades internas e reacender o descontentamento em um país ainda dependente do controle político e do isolamento.
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