Perícia recusou 18 aparelhos no caso Dark Horse por falhas em lacres
O Instituto de Criminalística de São Paulo rejeitou pen drives, celulares e notebooks porque as embalagens permitiam acesso aos equipamentos sem rompimento dos lacres, ameaçando a cadeia de custódia.

Divulgação
O Instituto de Criminalística de São Paulo recusou o recebimento de pelo menos 18 aparelhos eletrônicos enviados para perícia no âmbito da investigação ligada ao caso Dark Horse. Os materiais eram quatro pen drives, cinco celulares e nove notebooks. A rejeição ocorreu porque as embalagens e os lacres não ofereciam garantias suficientes quanto à integridade dos equipamentos.
Lacres não garantiam a inviolabilidade
As guias de remessa registravam espaços considerados suficientes para a entrada de um cabo de alimentação e para a transferência de dados. De acordo com os documentos, a abertura também poderia permitir o acesso ao conteúdo dos aparelhos sem que o lacre de segurança fosse rompido.
Essa situação representa risco à cadeia de custódia, conjunto de procedimentos que busca preservar a origem, a integridade e a rastreabilidade dos vestígios durante uma investigação. A dúvida sobre quem manipulou os equipamentos ou se houve alteração em seus dados pode comprometer o uso das provas obtidas a partir deles.
Embalagens foram refeitas
Em outro termo, a perícia apontou falha no fechamento de uma das embalagens plásticas. Embora o lacre numérico estivesse fechado e preservasse sua identificação, o invólucro havia sido dobrado de forma que possibilitava acesso à peça interna sem romper o selo.
Fotografias anexadas ao documento registraram a abertura na estrutura do invólucro. O espaço identificado permitia a introdução de objetos ou outros vestígios no interior da embalagem. Após a recusa, os aparelhos foram devolvidos para readequação dos invólucros e aplicação de novos lacres.
Uma certidão assinada em 8 de junho de 2026 registrou que o procedimento foi concluído e que os materiais seriam encaminhados novamente ao Instituto de Criminalística. Os documentos não informam, contudo, se a Polícia Civil verificou individualmente a integridade dos aparelhos após a correção das embalagens.
Aguardaram 50 dias por análise
Depois do novo envio, os equipamentos permaneceram no Instituto até 23 de julho aguardando perícia. O atraso foi atribuído ao elevado volume de casos e à fila de exames sob responsabilidade do órgão. Durante esse período, os dados dos aparelhos foram extraídos e disponibilizados à delegacia responsável pela investigação.
O inquérito foi encaminhado à Polícia Federal por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A divulgação dos documentos ocorreu após a retirada do sigilo dos materiais enviados pela Justiça de São Paulo.
Investigação envolve contrato de R$ 108 milhões
Os aparelhos foram apreendidos em 1º de junho em residências e empresas relacionadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama. Ela também dirige a Go Up Entertainment, produtora da cinebiografia Dark Horse, dedicada à trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A operação foi realizada por suspeitas de fraude em um contrato anual de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB, previsto para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito na periferia da capital. Até a data registrada nos documentos, 3.200 pontos haviam sido instalados, e ao menos três aditivos haviam alterado o prazo de conclusão do serviço.
A investigação apura se recursos do contrato teriam sido desviados para financiar a produção do filme. Até o momento, os documentos apresentados não indicam se houve acesso ou violação dos aparelhos durante o período em que ficaram sob guarda.
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