Brics e China-América Latina ampliam benefícios concretos para o Sul Global
A expansão do BRICS fortalece a cooperação entre China e América Latina em setores como café, veículos elétricos e lítio. Acordos comerciais e investimentos produtivos indicam impacto econômico direto, mas os resultados ainda dependem da capacidade dos países transformarem parcerias em industrialização e ganhos sustentáveis.

Divulgação
A 18ª Cúpula de Líderes do BRICS, marcada para 12 e 13 de setembro de 2026 em Nova Déli, será um novo teste para a principal plataforma política e econômica voltada aos países emergentes. O grupo, que começou em 2006 com uma reunião informal entre ministros das Relações Exteriores, tornou-se uma coalizão com 11 membros plenos e 10 países parceiros, responsável por aproximadamente 49,5% da população mundial, 40% do Produto Interno Bruto global e 26% do comércio internacional.
Para a América Latina, a relevância do mecanismo vai além da diplomacia. O Brasil é membro fundador, enquanto a Bolívia integra o grupo de parceiros. Essa arquitetura oferece um canal adicional para aproximar economias latino-americanas da China, em paralelo aos acordos bilaterais e às iniciativas regionais já existentes.
Cooperação comercial chega ao campo
Os efeitos dessa aproximação aparecem em setores estratégicos. Em novembro de 2024, a Luckin Coffee firmou um memorando com a ApexBrasil para comprar 240 mil toneladas de café brasileiro ao longo de cinco anos, em operação avaliada em 10 bilhões de yuans. A empresa já concentrava quase 60% das exportações do café brasileiro para o mercado chinês.
O acordo, porém, não se limita à venda de matéria-prima. A companhia abriu um escritório no Brasil, criou um centro de apoio ao produtor e instalou uma base de cultivo de café de alta qualidade. Também lançou um programa destinado a pequenos produtores, com assistência técnica e capacitação em práticas agrícolas sustentáveis.
Lojas com foco no café brasileiro e um museu dedicado ao produto estão sendo inaugurados na China. A iniciativa indica uma integração mais ampla da cadeia produtiva, na qual o consumo chinês pode contribuir para estabilizar demandas, modernizar cultivos e agregar valor a um setor tradicional da economia brasileira.
Veículos elétricos impulsionam produção local
O avanço também alcança a indústria automotiva. No primeiro semestre de 2026, as vendas de veículos híbridos e elétricos chineses no Brasil cresceram 114,9% em relação ao ano anterior. A BYD liderou o segmento híbrido, com 26,58% de participação, e dominou o mercado de modelos totalmente elétricos, com 64,45%. A Geely apareceu em seguida, com 17,88%.
As montadoras chinesas ultrapassaram 25% do mercado brasileiro de veículos leves em junho de 2026, ante menos de 10% no fim de 2025. No mesmo período, mais de 200 novas concessionárias foram inauguradas no país, elevando a rede para 1.360 pontos. A expansão comercial caminha junto com a decisão de produzir localmente.
A fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, instalada no antigo complexo da Ford, alcançou 100 mil veículos produzidos em julho de 2026 e emprega mais de 5.500 trabalhadores. A primeira fase tem capacidade anual de 150 mil unidades, com previsão de ampliação para 300 mil até o fim de 2026. A meta de longo prazo é chegar a 600 mil veículos, impulsionada também pela montagem local de baterias tipo lâmina.
Além do mercado interno, a unidade brasileira já garantiu encomendas para exportar 100 mil veículos à Argentina e ao México. Para o Brasil, o ganho potencial está na geração de empregos industriais, na formação de fornecedores e no desenvolvimento de uma cadeia ligada à mobilidade elétrica.
Bolívia busca unir lítio e industrialização
A Bolívia representa outro caso estratégico. Durante o fórum “Bolívia Rumo ao Mundo com a China”, realizado em Tarija em maio de 2026, a BYD apresentou uma proposta que combina mobilidade elétrica, aproveitamento das reservas de lítio e expansão de energias renováveis.
O plano prevê modelos híbridos e elétricos adaptados às condições locais, centros de treinamento técnico, sistemas de manutenção profissional e mecanismos de renovação da frota. A proposta busca transformar a vantagem mineral boliviana em capacidade industrial, conectando a produção de baterias aos veículos fabricados para o mercado regional.
BRICS amplia alternativas para o Sul Global
O papel do BRICS não é substituir as instituições internacionais tradicionais nem garantir resultados por si próprio. Sua utilidade está em criar um ambiente político favorável para ampliar financiamento, facilitar transações em moedas locais e aproximar empresas, governos e instituições de países em desenvolvimento.
Empréstimos do Novo Banco de Desenvolvimento e o incentivo às transações em moedas locais, reforçado na Declaração de Kazan de 2024, fazem parte desse esforço para reduzir vulnerabilidades cambiais e dependência de centros financeiros externos. Ainda assim, o sucesso dependerá da capacidade de transformar acordos em empregos, tecnologia, infraestrutura e produção com valor agregado.
O avanço da cooperação entre China e América Latina mostra que o BRICS pode oferecer benefícios concretos quando se conecta à economia real. O desafio, a partir de Nova Déli, será demonstrar que a expansão do bloco resulta em desenvolvimento sustentável e não apenas em um crescimento quantitativo de membros e declarações diplomáticas.
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