PF aponta indícios de que Vorcaro soube da operação antes da prisão
Relatório da Operação Compliance Zero cita contatos com advogado e servidores do Banco Central, articulação de reunião e tentativa de saída do país. André Mendonça autorizou o acesso aos documentos.

Divulgação
A Polícia Federal afirma ter reunido indícios de que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, teve conhecimento antecipado sobre a operação que resultou em sua prisão e articulou uma sequência de contatos e providências nos dias anteriores à ação.
Contatos antes da deflagração
Em relatório que integra as investigações da Operação Compliance Zero, a PF considera improvável que a tentativa de deixar o Brasil na noite anterior à deflagração dos mandados tenha sido uma coincidência. A corporação sustenta que o banqueiro já conhecia a proximidade das medidas policiais e buscou informações sobre autoridades e procedimentos ligados às apurações.
Em representação apresentada ao Supremo Tribunal Federal em fevereiro, a PF afirmou que Vorcaro teve acesso prévio a dados sobre diligências investigativas. O documento também registrou anotações e comunicações envolvendo autoridades, trâmites processuais e pessoas com possível influência sobre o andamento do caso.
Cronologia aponta movimentação intensa
O ministro André Mendonça retirou em 10 de setembro de 2026 o sigilo da Petição 15.556 e de outros 14 procedimentos relacionados ao Banco Master. A decisão atendeu a um pedido do presidente do STF, Edson Fachin, e permitiu o acesso público a parte das informações reunidas nas investigações.
De acordo com a cronologia apresentada pela PF, em 16 de novembro de 2025 Vorcaro fez uma anotação questionando se determinada pessoa tinha proximidade com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por medidas relacionadas ao caso. Na manhã seguinte, às 7h28, recebeu mensagens consideradas urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco mais de uma hora depois, informou que providenciaria um voo saindo do Aeroporto de Congonhas.
Ainda no mesmo dia, Vorcaro conversou com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada a respeito de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. Após a divulgação, encaminhou o link ao advogado. Warde protocolou então uma petição na vara solicitando acesso à investigação e utilizou a matéria como indicativo da existência do procedimento, que permanecia sob sigilo.
PF investiga contatos no Banco Central
O relatório também destaca comunicações entre Vorcaro e os servidores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana. A investigação afirma que os dois atuavam informalmente em defesa dos interesses do Banco Master e teriam recebido vantagens indevidas.
Na representação encaminhada ao STF, a PF informou que Paulo Sérgio orientava Vorcaro sobre reuniões e documentos enviados ao Banco Central. Belline teria desempenhado papel semelhante. As investigações identificaram ainda um grupo de mensagens entre os três para discutir assuntos de interesse da instituição financeira.
Segundo a PF, Paulo Sérgio e Belline consideraram fundamental que Vorcaro conversasse em 17 de novembro com Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central. O encontro foi marcado para o início da tarde. Para os investigadores, o banqueiro teria usado os contatos no órgão para forçar a realização da reunião mesmo já ciente da iminente atuação policial.
Prisão, soltura e nova ordem judicial
Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes Unidos. A primeira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada na manhã seguinte.
O banqueiro foi solto em 28 de novembro por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Entre os elementos analisados para conceder a liberdade estava a reunião realizada com representantes do Banco Central antes da viagem. Posteriormente, a PF utilizou as novas informações para pedir a prisão preventiva de Vorcaro em 27 de fevereiro.
André Mendonça acolheu o pedido, e Vorcaro foi preso novamente em 4 de março. Ao determinar a custódia, o ministro citou risco concreto de interferência nas investigações. A PF concluiu que há fortes indícios de articulações para proteger dirigentes da organização criminosa, obter conhecimento antecipado de atos processuais e organizar logisticamente a saída do país em período próximo à execução das medidas judiciais.
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