Brasil tem condições para evitar austeridade fiscal sem cortar direitos sociais
Coordenador da campanha de Lula defende que reservas internacionais e liquidez do Tesouro permitem buscar eficiência nos gastos públicos sem comprometer políticas sociais.

A trajetória fiscal do Brasil não justifica medidas de austeridade agressivas, segundo análise do coordenador do programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Sérgio Gabrielli. Em posicionamento firme, ele rejeita propostas defendidas pelo mercado financeiro que preconizam cortes em políticas sociais, como a redução real do salário mínimo e a limitação de gastos obrigatórios com saúde e educação.
Gabrielli destacou que o país dispõe de reservas internacionais superiores a US$ 300 bilhões e de um colchão de liquidez no Tesouro capaz de cobrir quase oito meses de vencimentos da dívida pública. Tais indicadores, na visão do coordenador, conferem ao governo margem para enfrentar desafios fiscais sem recorrer a medidas de impacto social negativo.
"Essas propostas são inaceitáveis para um governo comprometido com a redução das desigualdades e a ampliação de direitos", afirmou. No entanto, ele não descartou a necessidade de aprimorar a gestão das despesas públicas, sugerindo a revisão de subsídios ineficientes e a realocação de emendas parlamentares como alternativas para otimizar recursos.
O debate ganha relevância em um contexto de maior atenção do mercado sobre a trajetória da dívida bruta, que atingiu 82,5% do PIB em julho — alta de mais de 10 pontos percentuais desde o início do atual mandato. Durante encontro recente com empresários e investidores, o presidente Lula priorizou a discussão sobre os custos dos juros no financiamento das empresas, sinalizando preocupação com o impacto da política monetária sobre a atividade econômica.
Gabrielli também criticou a meta de inflação de 3%, considerada excessivamente rígida diante do cenário global. Para ele, a rigidez da meta não contribui para o equilíbrio fiscal e, sim, para a manutenção de taxas de juros elevadas, que encarecem o crédito e prejudicam o crescimento. "Uma inflação de 3% em um ambiente internacional instável é uma meta irrealista", argumentou.
A definição da política fiscal para um eventual quarto mandato ainda está em análise, com Lula avaliando diferentes cenários antes de consolidar a estratégia econômica pós-eleições de outubro.



