Internações oncológicas de urgência crescem no Sus e expõem desigualdades
Estudo da Unifesp com quase 5 milhões de registros do SUS entre 2008 e 2024 aponta crescimento anual de 3,5% nas internações oncológicas urgentes e de 4,1% nos óbitos hospitalares. O avanço afeta principalmente mulheres, pessoas pretas e pardas, idosos e moradores das regiões Norte e Nordeste.

Divulgação
As internações oncológicas de urgência no SUS cresceram 3,5% ao ano entre 2008 e 2024, enquanto os óbitos hospitalares relacionados a essas complicações aumentaram 4,1% no período. A avaliação, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), analisou quase 5 milhões de registros hospitalares e revela um quadro preocupante no atendimento ao câncer no Brasil.
Crescimento além do envelhecimento
O aumento persistiu mesmo depois de ajustes estatísticos que consideraram o envelhecimento da população, um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de tumores. Para os pesquisadores, o resultado indica que o problema não decorre apenas da mudança no perfil etário dos brasileiros. Diagnóstico tardio, dificuldades no acesso ao tratamento especializado e desigualdades na rede de atenção à saúde também ajudam a explicar a piora do cenário.
As emergências oncológicas são complicações graves provocadas pelo câncer ou pelo tratamento e exigem atendimento imediato. Entre os casos mais severos estão a compressão da medula espinhal, a insuficiência respiratória causada pela disseminação da doença para os pulmões, obstruções intestinais, infecções graves em pacientes com imunidade reduzida e alterações metabólicas capazes de provocar arritmias e risco de morte.
Pacientes chegam ao hospital com a doença avançada
Um dos desafios observados pelos pesquisadores é o grande número de pacientes que chegam ao pronto-socorro sem diagnóstico prévio ou após enfrentar demora para iniciar o tratamento. Em vez de identificar o câncer em fases iniciais, quando as chances de controle e cura são maiores, parte dos pacientes só procura o sistema de saúde quando a doença já compromete órgãos vitais ou provoca uma complicação aguda.
Essa realidade sobrecarrega as emergências hospitalares e reduz as possibilidades de intervenção. Casos tratados tardiamente costumam exigir procedimentos complexos, internações prolongadas e equipes multiprofissionais, além de apresentarem maior risco de sequelas e morte. O quadro também impõe sofrimento intenso aos pacientes e às famílias, especialmente quando a rede de cuidado não consegue oferecer resposta rápida e contínua.
Desigualdades atingem grupos mais vulneráveis
Os dados mostram que o crescimento das internações e dos óbitos foi mais acentuado entre mulheres, pessoas pretas e pardas, idosos e moradores das regiões Norte e Nordeste. As diferenças refletem desigualdades históricas no acesso a exames preventivos, rastreamento, diagnóstico precoce, tratamento especializado e serviços de urgência.
O estudo não conseguiu identificar quantos pacientes ainda não tinham diagnóstico de câncer antes da internação, pois essa informação não está disponível na base de dados analisada. Os pesquisadores pretendem avançar nessa investigação com o acompanhamento prospectivo de pacientes atendidos na rede pública.
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a prevenção, melhorar o rastreamento e reduzir o tempo entre a suspeita clínica, a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento. Sem avanços nessa cadeia de cuidado, as emergências oncológicas devem continuar pressionando hospitais e exposing fragilidades do SUS.
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