Ia tenta ocupar espaço deixado por ferramenta de monitoramento de conteúdos virais
Após o encerramento do CrowdTangle pela Meta, o Arbiter combina agentes de inteligência artificial e diferentes modelos de linguagem para monitorar narrativas, contas coordenadas e conteúdos potencialmente enganosos em várias redes sociais.

Divulgação
O encerramento do CrowdTangle, em agosto de 2024, deixou uma lacuna importante para jornalistas, pesquisadores e verificadores de fatos. Durante mais de dez anos, a ferramenta da Meta permitiu acompanhar a circulação de publicações no Facebook e no Instagram, além de identificar conteúdos virais, campanhas de desinformação e discursos potencialmente prejudiciais. Agora, novas plataformas baseadas em inteligência artificial tentam ocupar esse espaço.
Arbiter aposta em agentes de IA
Entre os projetos que buscam preencher essa demanda está o Arbiter, desenvolvido pela organização sem fins lucrativos SimPPL. A plataforma combina grandes modelos de linguagem, conhecidos como LLMs, e agentes de IA para coletar, organizar e interpretar publicações de redes sociais em grande escala.
O sistema acessa dados por meio de APIs das próprias plataformas, bancos acadêmicos e empresas especializadas em coleta de informações. Entre os ambientes monitorados estão Facebook, Instagram, X, YouTube, TikTok, Reddit, Bluesky e 4chan. A proposta é oferecer às redações uma alternativa mais independente das grandes empresas de tecnologia.
Em vez de se limitar a mostrar o volume de menções a uma palavra-chave, o Arbiter tenta compreender o contexto das conversas. O usuário pode fazer perguntas em linguagem simples, e a ferramenta identifica narrativas relacionadas, agrupa publicações semelhantes, extrai alegações e acompanha contas que repetem a mesma mensagem em diferentes plataformas.
Objetivo é antecipar conteúdos enganosos
Uma das principais funções da plataforma é mapear quando uma narrativa começa a ganhar força, em quais redes ela aparece e quando atinge seu pico. Essa análise temporal pode ajudar repórteres a perceber campanhas falsas ou enganosas antes que se espalhem de forma ampla, quando a correção dos danos já se torna mais difícil.
Swapneel Mehta, cofundador e presidente da SimPPL, defende que o jornalismo precisa de mecanismos independentes para observar o ambiente digital. Segundo ele, os interesses comerciais das plataformas nem sempre se alinham à verificação de fatos e ao combate à desinformação. Por isso, a ideia é criar uma estrutura resiliente para profissionais que já enfrentam restrições de acesso, pressão financeira e grande volume de dados.
O Arbiter também foi desenvolvido para superar limitações dos buscadores das redes sociais. Em uma pesquisa sobre ceticismo climático, por exemplo, o sistema pode distinguir críticas científicas, negações sem base factual e publicações satíricas, considerando o contexto em vez de simplesmente localizar palavras isoladas.
Ferramenta utiliza vários modelos
Para processar grandes conjuntos de informações, a plataforma não depende de um único modelo de IA. Ela combina entre oito e dez sistemas, cada um responsável por etapas como interpretar consultas, recuperar publicações, identificar redes coordenadas e mapear relações semânticas entre conteúdos. Algumas camadas permitem que as redações escolham o provedor de modelos de linguagem utilizado.
Organizações de notícias e checagem já começaram a testar ou integrar a ferramenta, incluindo a Deutsche Welle, a argentina Chequeado e a filipina Rappler. O Nest Center, da Mongólia, que administra o Centro Mongol de Checagem de Fatos, também participou dos primeiros testes enquanto investigava campanhas coordenadas de desinformação associadas à Rússia e à China.
O avanço de ferramentas como o Arbiter mostra como a IA passa a ser usada não apenas para produzir textos, mas para organizar informações, detectar padrões e apoiar investigações jornalísticas. A automação, porém, não elimina a necessidade de análise humana: conclusões sobre desinformação, influência coordenada e intenção por trás de uma campanha ainda exigem contexto, confirmação e responsabilidade editorial.
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