Uva resistente pode reduzir em até 90% o uso de fungicidas nos vinhedos
Testes com uvas piwis em Minas Gerais registraram queda de até 90% nas aplicações de fungicidas. Mais resistentes ao míldio e ao oídio, as variedades combinam genes da Vitis vinifera com menor necessidade de defensivos e podem viabilizar vinhos mais baratos e sustentáveis.

Divulgação
Resistência com base genética
O cultivo de uvas para vinhos finos pode exigir até 30 aplicações de fungicidas por safra, principalmente para controlar o míldio e o oídio. Em testes realizados em Minas Gerais, as uvas piwis reduziram drasticamente essa necessidade: em dois anos, não houve pulverizações contra o míldio e apenas três aplicações foram feitas contra o oídio.
O termo piwi vem do alemão pilzwiderstandsfähige, que significa resistente a doenças. Essas variedades fazem parte de uma nova geração de híbridos desenvolvidos por retrocruzamentos e seleção assistida por marcadores moleculares. A estratégia mantém mais de 85% dos genes da Vitis vinifera, espécie associada às uvas utilizadas na elaboração de vinhos finos.
Resultados positivos em Minas Gerais
A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais iniciou estudos com mudas importadas da Itália em 2021, em parceria com a Vinícola Stella Valentino, em Andradas, no sul do estado. A área experimental recebeu 50 plantas de oito variedades, incluindo Cabernet Eidos, Cabernet Volos, Merlot Khantus, Sauvignon Kratos, Sauvignon Rytos, Fleurtai e Soreli.
As primeiras colheitas de verão ocorreram em 2023 e 2024. Além de apresentarem boa produtividade e qualidade, as plantas responderam bem às condições locais. Pequenas levas foram vinificadas para avaliação sensorial, com resultado considerado positivo pelos pesquisadores envolvidos no estudo.
Após o fim da parceria experimental, o proprietário da vinícola decidiu ampliar o plantio. Foram instaladas 500 mudas de Merlot Khantus e Fleurtai, que serão usadas na produção de vinhos por três anos. O objetivo é avaliar a consistência da bebida e comprobar se a menor dependência de defensivos pode resultar em um produto competitivo e mais acessível.
Vinho mais barato e com menor impacto
Os vinhos produzidos pela técnica da dupla poda ainda apresentam qualidade superior, mas o processo eleva bastante o custo e pode colocar as garrafas na faixa de R$ 300. A expectativa com as piwis é oferecer uma bebida de bom padrão sensorial por valores entre R$ 100 e R$ 140, unindo menor impacto ambiental e preço mais atraente.
As novas plantas também exigem menos mão de obra e, inicialmente, não receberam aplicações de defensivos. Esse desempenho interessa especialmente às regiões com excesso de umidade, condição que favorece o míldio e pode comprometer safras inteiras de variedades mais sensíveis.
Novos testes aguardam a primeira colheita
Em Bom Jesus do Amparo, na região metropolitana de Belo Horizonte, o médico Helvécio Teles Teixeira também aposta nas variedades resistentes. Depois de avaliar uma uva considerada precoce e pouco produtiva, ele plantou Sauvignon Kratos e Cabernet Volos. As novas mudas sobreviveram a períodos de alta umidade com o uso apenas de produtos orgânicos.
A primeira colheita de verão está programada para ser enviada à Epamig, onde as uvas serão vinificadas. O teste ajudará a definir se as variedades se adaptam à propriedade e se conseguem produzir vinhos com características suficientes para ganhar espaço no mercado.
Desafio para produtores e enólogos
As piwis já são reconhecidas em concursos especializados na Alemanha, mas ainda enfrentam resistência em países com regras rígidas de origem e tradição enológica. No Brasil, a expansão dependerá de novos investimentos, da ampliação das áreas plantadas e da disposição dos enólogos em trabalhar essas uvas sem preconceito.
Por enquanto, elas representam uma alternativa de nicho para consumidores interessados em vinhos com pegada agroecológica. Se os testes confirmarem qualidade constante, produtividade e menor necessidade de fungicidas, as piwis poderão mudar a forma de produzir vinho em regiões brasileiras desafiadas pelo clima.
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