SP perde ao menos dez programas de pesquisa agrícola sem reposição de cientistas
Programas de melhoramento genético com culturas como arroz, algodão, trigo e soja foram interrompidos no IAC após a saída de pesquisadores sem substituição. Associação alerta para riscos à segurança alimentar e à conservação de germoplasma, enquanto o governo estadual afirma que está recompondo equipes e ampliando vagas.

Divulgação
Programas históricos foram interrompidos
O Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) perdeu ao menos dez programas de pesquisa em melhoramento genético nas últimas décadas por falta de reposição de pesquisadores. As linhas paralisadas envolvem culturas estratégicas como arroz, algodão, mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja, além da crotalária.
A interrupção ocorreu principalmente após a aposentadoria ou morte dos cientistas responsáveis, especialmente melhoristas, sem que novos profissionais assumissem os trabalhos. Esses programas não serviam apenas ao desenvolvimento de cultivares. Eles também garantiam a manutenção de linhagens e variedades que compõem acervos científicos formados ao longo de décadas.
A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) considera a descontinuidade uma ameaça a um patrimônio público ligado diretamente à produção de alimentos e à segurança alimentar. Para a entidade, a ausência de reposição adequada provoca um apagão científico e reduz a capacidade do estado de responder às necessidades da agricultura.
Equipes reduzidas pressionam outras pesquisas
O levantamento da associação indica que outros sete programas continuam em atividade com apenas um pesquisador responsável. Entre eles estão estudos com adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura. A concentração de responsabilidades aumenta o risco de novas paralisações e limita o ritmo dos trabalhos.
Também há preocupação com os bancos de germoplasma, que reúnem materiais genéticos muitas vezes indisponíveis no mercado. Essas coleções exigem monitoramento constante, multiplicação em campo e nova conservação, pois as sementes perdem capacidade de germinação com o tempo. A APqC afirma que a falta de manutenção já causou perdas no germoplasma de girassol após a morte da pesquisadora responsável.
Carreira e reposição de vagas entram no debate
A associação avalia que a diferença de remuneração em relação a outros órgãos nacionais dificulta a permanência de cientistas em São Paulo. A Lei Complementar nº 1.435/2025 alterou a carreira de Pesquisador Científico, ampliou de seis para 18 os níveis de progressão e retirou vantagens históricas, como sexta-parte e quinquênios, para quem optou pelo subsídio. A APqC sustenta que a mudança tornou a evolução profissional mais lenta.
O último concurso para institutos de pesquisa ligados à área agrícola teve 37 vagas, autorizadas em 2022 e disputadas em 2023. A associação considera o número insuficiente diante do envelhecimento dos quadros e da quantidade de linhas de pesquisa mantidas pelas instituições. A paralisação de programas de melhoramento também pode retardar a criação de variedades mais produtivas e resistentes aos efeitos das mudanças climáticas.
Estado afirma que está recompondo equipes
A Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo informou que os 37 aprovados no concurso foram nomeados durante a Agrishow e anunciou a abertura de mais sete vagas. Segundo a pasta, as contratações já repuseram mais de 88% das aposentadorias registradas desde 2023, incluindo um pesquisador destinado à área de grãos e fibras do IAC.
O governo estadual defende que a reestruturação da carreira aumentou em mais de 70% a remuneração inicial dos pesquisadores e promete novas medidas para tornar a profissão mais atrativa. A secretaria também afirmou que prioriza a preservação dos bancos de germoplasma e das coleções distribuídas entre unidades da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), com reposição de equipes e melhorias na infraestrutura das unidades de pesquisa.
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