Nova classificação do café: modernizar sem desvalorizar o produtor?
A proposta para uma nova Classificação Oficial Brasileira (COB) do café tem gerado amplos debates no setor. Enquanto busca modernizar os critérios de qualidade e se alinhar aos avanços científicos, a mudança pode ter impactos significativos na valoração do produto, nos custos de rebeneficiamento e na remuneração dos cafeicultores, levantando questões sobre como equilibrar a inovação com a proteção de quem está na base da cadeia produtiva.

Divulgação
A discussão sobre a atualização da Classificação Oficial Brasileira (COB) do café tem agitado o setor, levantando importantes questionamentos sobre o futuro da produção e comercialização. A premissa é simples: o mercado de café evoluiu, a ciência trouxe novas formas de avaliação e a percepção de qualidade se expandiu consideravelmente nas últimas décadas. Diante disso, modernizar a régua pela qual o café é medido parece um caminho natural. No entanto, a grande questão que surge é: em uma mudança tão substancial, quem realmente ganha e quem pode ser penalizado?
Proposta da Nova COB: mudanças significativas nos critérios
A classificação atual, regida pela IN MAPA nº 8/2003, avalia o café beneficiado em grão cru com base em defeitos apurados em amostras de 300 gramas, usando uma tabela de equivalência. A Nova COB propõe uma alteração profunda: a amostra de trabalho passa a ser de apenas 100 gramas, e a classificação física considerará percentuais em massa de catação, com limites específicos para defeitos considerados "graves". Esses "defeitos graves" incluem grãos pretos, preto-verdes, ardidos, mofados e brocados sujos, mesmo que parcialmente afetados. Se um lote exceder esses limites, será classificado como "Fora de Tipo" e não poderá ser comercializado sem antes passar por um rebeneficiamento no local de armazenagem, buscando um novo enquadramento.
O impacto direto no bolso do produtor
Embora as mudanças pareçam apenas metodológicas à primeira vista, no universo do café, classificação e valor estão intrinsecamente ligados. Uma nova metodologia que reclassifique um lote de café pode impactar diretamente o preço de venda, os deságios aplicados e até mesmo as condições de comercialização. A necessidade de rebeneficiamento para cafés "Fora de Tipo" impõe custos adicionais. Quem arcará com esses valores? Quanto café será perdido no processo? E, fundamentalmente, como o mercado irá traduzir essa nova classificação em um preço justo para o produtor?
Dados do MAPA e a busca por comparação
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) tem liderado os debates e apresentado dados sobre a aplicação da nova metodologia. Em análises de cafés Bica Corrida, 62,77% das amostras foram classificadas como Tipo 4, Tipo 5 ou Fora de Tipo. Embora este número, por si só, não indique prejuízo, levanta uma questão crucial: como esses mesmos cafés seriam classificados pelo sistema atual? A ausência de uma comparação direta – submetendo os mesmos lotes aos dois sistemas – dificulta a compreensão real dos efeitos da mudança. É vital saber quantos cafés melhorariam, quantos permaneceriam iguais e quantos piorariam de enquadramento, e, mais importante, como essas diferenças se traduzem em preço, deságio e custo para o produtor.
Classificação sensorial: qualidade e os desafios do mercado
Outra novidade da Nova COB é a incorporação formal de uma classificação sensorial, dividida em cinco categorias: Especial, Fino, Superior, Comercial e Inferior. A categoria Especial, por exemplo, exige ausência de descritores sensoriais críticos e uma nota afetiva mínima de 82 pontos. Essa aproximação com a lógica dos cafés especiais, que busca reconhecer atributos positivos e agregar valor, pode ser um avanço. No entanto, o desafio reside em como essa estrutura será aplicada aos cafés comerciais e commodities, que representam a maior parte da produção brasileira. A preocupação é que critérios de diferenciação mais sofisticados se tornem, na prática, novos instrumentos de penalização, sem que a sofisticação se traduza em maior valor para o produtor na origem da cadeia.
Segurança alimentar e os "defeitos graves"
A discussão também passa pela segurança alimentar, um ponto inegociável na proteção do consumidor. Defeitos físicos, qualidade sensorial e segurança do alimento, contudo, não são conceitos equivalentes. Embora existam estudos que associam maior ocorrência de algumas toxinas a certos grãos defeituosos, isso não significa que todo grão classificado como "defeito grave" represente, isoladamente, um risco sanitário. É fundamental que os limites propostos para os chamados "defeitos graves" sejam claramente embasados em evidências científicas de risco à saúde, e não apenas em aspectos de qualidade ou defeito físico, para que a modernização não gere barreiras desnecessárias ou injustas à comercialização do produto.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








