Fazenda em Minas Gerais revoluciona produção de café com foco em sustentabilidade e futuro
Uma família cafeeira do Sul de Minas Gerais está redefinindo o modelo de produção de café ao integrar lavouras com corredores ecológicos e adotar práticas de agricultura regenerativa. A iniciativa, que visa alta qualidade e sustentabilidade a longo prazo, transforma áreas menos produtivas em bosques e foca no bem-estar social, provando que é possível unir rentabilidade e conservação ambiental em um cenário de desafios climáticos.

Divulgação
No coração do Sul de Minas Gerais, em Três Pontas, uma transformação silenciosa, mas profunda, está redesenhando a paisagem das Fazendas Caxambu e Aracaçu. Onde antes dominavam as lavouras de café, hoje se ergue um bosque vibrante, conectando fragmentos de mata e criando um corredor ecológico vital para aves e outros animais. A decisão estratégica de converter áreas produtivas em ecossistemas restaurados, à primeira vista, poderia sugerir uma redução na colheita. Contudo, a gerente de ESG das fazendas, Hellen Gomes, campeãs do prestigiado Prêmio Fazenda Sustentável, garante o oposto: "Pelo contrário, eu acho que até agregou". A medida permitiu uma otimização das áreas restantes, com maior densidade de plantas e manejo mais eficiente, garantindo frutos colhidos no ponto ideal e, consequentemente, cafés de qualidade superior.
Uma herança centenária, um futuro regenerativo
Essa visão de futuro é fruto de uma jornada de 19 anos, construída sobre uma base de mais de um século de história familiar. O cultivo do café chegou à terceira geração com Carmem Lúcia Chaves de Brito, conhecida como Ucha, e seus quatro irmãos. Após o falecimento do pai, a família optou por unificar a produção e profissionalizar a gestão, reescrevendo a trajetória para além dos cafés convencionais. “Deixamos de ser uma fazenda com produção de cafés convencionais e agregamos valor ao nosso produto”, explica Ucha, enfatizando o desejo de “deixar marcas emocionais importantes na vida das pessoas e marcas ecológicas muito positivas nesse pedaço de chão”. Das cerca de 380 hectares que compõem as propriedades, aproximadamente 215 são dedicados ao café, com quase 30% da área total destinada à preservação, incluindo reserva legal, APPs e bosques. Há mais de 15 anos, o programa "Vamos Plantar" solidifica esse compromisso, adicionando cerca de 1.000 árvores anualmente à paisagem.
Agricultura regenerativa: o solo como prioridade
A transformação da família Chaves de Brito não se limita à paisagem; ela permeia a própria essência da produção. A dependência do café commodity foi substituída por um foco crescente em cafés especiais, alinhado à incorporação de princípios da agricultura regenerativa. Nas lavouras, a prática de reaproveitar resíduos do ciclo do café — cascas, palhas e outros materiais — é central, convertendo-os em compostos orgânicos que enriquecem o solo. O manejo inclui o uso estratégico de plantas de cobertura, insumos biológicos e um acompanhamento rigoroso da microbiologia do solo. Análises periódicas medem a evolução da saúde do solo ao longo dos anos, orientando decisões e comprovando a eficácia das práticas. Ucha ressalta que não existe uma "receita de bolo" universal; as diferenças de exposição solar, relevo e microbiologia exigem um manejo adaptado a cada talhão.
Equilíbrio entre produtividade, pessoas e planeta
Para Paulo Fernando Chaves de Brito, irmão de Ucha e corresponsável pela administração, a sustentabilidade de longo prazo é indissociável da viabilidade econômica. "A agricultura é rentável, e ela precisa ser rentável. Essa agricultura regenerativa, mais sustentável, vem nos trazendo produtividade", afirma. Essa visão holística se estende à equipe, que compreende 44 funcionários fixos e um grupo de safristas durante a colheita. Treinamentos regulares explicam a lógica dos manejos adotados e a inter-relação entre resultados ambientais e o dia a dia da produção. O compromisso social se reflete em iniciativas com as comunidades vizinhas, como a instalação de uma torre de internet e o projeto "Fazenda Escola", que promove ações educativas. “De nada adianta a gente cuidar do meio ambiente se não cuidamos da vida das pessoas que trabalham para produzir cada grão de café”, pontua Ucha, destacando que essa combinação de cuidado ambiental e social agrega valor percebido pelos clientes de cafés especiais, tanto no Brasil quanto no exterior, com a fazenda exportando cerca de 40% de sua produção.
Desafios climáticos e a sucessão do futuro
As mudanças climáticas intensificam a busca por eficiência e resiliência. Ucha observa uma concentração alarmante de eventos extremos dentro de uma mesma safra — geada, estiagem, altas temperaturas e granizo, algo que antes se manifestava em diferentes ciclos produtivos. A adaptação a esse cenário exige escolhas criteriosas de cultivares, manejo do solo aprimorado, renovação de áreas e um planejamento robusto. "O clima é 70% do negócio, você não tem como mexer. Os outros 30%, você tem que tentar ser bom demais", salienta Ucha, frisando que é nessa parcela sob controle do produtor que a fazenda investe em conhecimento e tecnologia para minimizar erros. A preparação para o futuro também inclui a sucessão: a quarta geração, representada por Rafael Brito, filho de Paulo Fernando e sobrinho de Ucha, já está engajada na gestão há cerca de cinco anos, garantindo a continuidade dessa filosofia inovadora.
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