Cuidar da fonte para atravessar as secas: um pacto entre conservação e seguro rural
A interdependência entre florestas e produção agropecuária exige novas políticas que conectem conservação ambiental e proteção contra riscos climáticos, com potencial para fortalecer o agronegócio e a segurança hídrica do país.

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A relação intrínseca entre a conservação ambiental e a produtividade do agronegócio, especialmente em face das crescentes secas, tem sido tratada de forma fragmentada. Políticas agrícolas e florestais, que no mundo físico operam em conjunto, frequentemente são pensadas em esferas distintas. Contudo, a realidade demonstra que a saúde das florestas é um pilar fundamental para a manutenção dos regimes hídricos, impactando diretamente as lavouras, pastagens, rios e a geração de energia hidrelétrica. Estudos indicam que a evaporação das árvores contribui significativamente para a formação de chuvas, respondendo por cerca de um terço do volume hídrico durante a safra da soja em diversas regiões brasileiras.
Desmatamento impacta produção e aumenta prejuízos
A redução da cobertura florestal, especialmente na Amazônia, tem consequências diretas e mensuráveis para a agricultura. Pesquisas apontam que o desmatamento na região amazônica pode ter diminuído a precipitação sazonal em percentuais que variam entre 6% e 30% em estados cruciais para a produção agrícola. Essa escassez hídrica se traduz em perdas significativas de produtividade, com estimativas apontando para a redução de aproximadamente 700 mil toneladas de soja em algumas áreas analisadas. Quando as fontes de água se enfraquecem, o custo para superar períodos de seca se eleva consideravelmente. Dados compilados sobre desastres climáticos revelam que os prejuízos agropecuários declarados na Amazônia Legal atingiram uma média anual alarmante de cerca de R$ 6 bilhões entre 2021 e 2024.
Sistema financeiro e riscos climáticos
A vulnerabilidade do setor agropecuário aos eventos climáticos extremos já é uma preocupação central para o Sistema Financeiro Nacional. Em 2025, secas e estiagens foram responsáveis por uma parcela expressiva, 84,4%, da exposição estimada do sistema aos riscos climáticos físicos. O Banco Central do Brasil (BCB) tem alertado que tais eventos climáticos afetam diretamente a produção agrícola, a renda dos produtores rurais, o valor das garantias e, consequentemente, a capacidade de pagamento dos empréstimos e financiamentos. Essa interconexão exige uma abordagem mais integrada e proativa para mitigar os impactos.
Um pacto público-privado para a resiliência
Para construir um futuro mais resiliente, é essencial um acordo robusto entre os setores público e privado que conecte as políticas de conservação com as de proteção ao produtor. O agronegócio, beneficiário direto da infraestrutura natural, tem um papel crucial a desempenhar na sua conservação. Em contrapartida, o país deve oferecer mecanismos de apoio para que os produtores enfrentem os riscos climáticos que, mesmo com esforços de conservação, ainda persistem. Lideranças do setor poderiam impulsionar o cumprimento rigoroso do Código Florestal, a destinação de florestas públicas para fins de conservação e uso sustentável, e o combate efetivo ao desmatamento. A destinação de milhões de hectares de florestas públicas, atualmente sem uso definido na Amazônia, para fins de conservação, além de atender a um preceito constitucional, reduziria o espaço para atividades ilegais como a grilagem e o desmatamento especulativo.
Seguro rural e fundos para adaptação climática
Paralelamente, governo e setor privado precisam trabalhar juntos para desenhar um seguro rural mais estável, previsível e focado na redução do risco climático. Iniciativas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático por Níveis de Manejo, em desenvolvimento pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), já buscam incentivar práticas que aumentam a infiltração e conservação da água no solo. Produtores que adotam níveis de manejo mais eficientes podem ter acesso a subsídios de até 50% no seguro rural. Para garantir a sustentabilidade dessas ações, é fundamental explorar fontes de recursos estáveis para seguro rural, mitigação e adaptação climática. O Fundo Social do Pré-Sal, com sua finalidade de apoiar a adaptação climática, segurança alimentar e infraestrutura hídrica, é um exemplo de potencial fonte. Além disso, a discussão sobre mudanças legais para mobilizar recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento (FNO, FNE e FCO) para capitalizar um fundo de seguro seria pertinente, ampliando as ferramentas disponíveis para a proteção do setor. A lógica é clara: a floresta garante a chuva, o bom manejo a conserva, e o seguro ampara quando a natureza falha. Reunir os atores desse ecossistema em torno de soluções integradas é o caminho mais produtivo para fortalecer o agronegócio e garantir a segurança hídrica e alimentar do país.
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