Café brasileiro busca reduzir dependência externa e ampliar valor agregado
A alta de tarifas nos Estados Unidos expôs a dependência da cafeicultura brasileira de poucos mercados e reacendeu a defesa por diversificação comercial, maior presença institucional e exportação de produtos com mais valor agregado.

Divulgação
A elevação das tarifas cobradas pelos Estados Unidos acendeu um alerta na cafeicultura brasileira. O episódio revelou o risco de concentrar vendas em poucos compradores e reforçou a necessidade de ampliar a presença do café nacional em outros mercados, especialmente para produtos industrializados com maior valor agregado.
Dependência de um cliente estratégico
Os Estados Unidos respondem por aproximadamente 20% das exportações brasileiras de café solúvel e recebem cerca de 30% dos embarques de café verde. A importância do destino torna qualquer barreira comercial especialmente sensível para produtores, cooperativas e indústrias.
O risco da concentração já havia aparecido durante a guerra entre Rússia e Ucrânia. Antes do conflito, a indústria de solúvel registrava três recordes consecutivos de volume exportado, mas perdeu de imediato um mercado equivalente a cerca de 500 mil sacas por ano. O episódio mostrou como mudanças geopolíticas podem afetar rapidamente o fluxo comercial do setor.
Barreiras maiores para o café industrializado
Enquanto o café verde encontra menos obstáculos tarifários, o café solúvel enfrenta taxas relevantes em diferentes destinos. As cobranças chegam a 9% na União Europeia, 17% na China, 20% na Indonésia e 45% no México. Essas barreiras reduzem a competitividade brasileira e dificultam a expansão de exportações com maior processamento industrial.
Para representantes do setor, o Brasil precisa usar com mais intensidade os acordos comerciais e avançar em negociações bilaterais. A redução de barreiras para produtos de interesse de outros países pode ser negociada em troca de melhores condições para a entrada do café solúvel brasileiro.
Setor pede maior presença institucional
A reação à tarifa norte-americana também evidenciou a necessidade de representação permanente nos principais mercados consumidores. A defesa de interesses junto a autoridades, embaixadas e entidades locais é considerada essencial para acompanhar mudanças regulatórias e responder a medidas que afetem as exportações.
A aproximação com a National Coffee Association e com empresas dos Estados Unidos ajudou o setor a articular uma resposta. A orientação, porém, é manter essas relações sem abandonar a diversificação de destinos, evitando que dificuldades em um único mercado comprometam toda a cadeia.
Cooperativismo e rastreabilidade ganham importância
Entidades e cooperativas defendem mais articulação entre produtores, indústrias e organizações representativas. A padronização das mensagens e a adoção de protocolos ambientais fortalecem a imagem do café brasileiro diante das exigências internacionais.
A rastreabilidade tornou-se uma vantagem competitiva. Informações do Cadastro Ambiental Rural, documentos fiscais eletrônicos, registros de comercialização e dados de crédito rural ajudam a comprovar a origem do produto e o cumprimento de normas ambientais e sociais.
Em um período de 12 meses, as vendas de café para a União Europeia cresceram 42,8%, mesmo durante as discussões sobre o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento. No mesmo intervalo, a participação em valor dos cafés especiais, certificados ou submetidos a normas de sustentabilidade avançou de 17% para 30%.
Uma plataforma criada para organizar essas informações reúne 57 cooperativas e empresas e acompanha cerca de 260 mil cafeicultores. O desafio agora é transformar a capacidade produtiva e ambiental do Brasil em vantagem comercial, reduzindo a dependência externa e aumentando a participação do país nos segmentos de maior valor.
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