Alimentação saudável para o planeta é defesa do cientista Rattan Lal
Especialista mundial em saúde do solo, Rattan Lal defende a recuperação de pastagens degradadas, a redução do desperdício de alimentos e mudanças nos hábitos de consumo para conciliar produção agrícola e preservação ambiental.

Divulgação
O cientista Rattan Lal, um dos principais pesquisadores mundiais sobre saúde do solo, defende que a produção de alimentos precisa deixar de ser tratada apenas como causa das mudanças climáticas e passar a ocupar um papel central na solução do problema. Para ele, a recuperação de áreas degradadas, a redução do desperdício e hábitos alimentares menos dependentes da carne são caminhos necessários para preservar o planeta.
Agricultura deve ajudar a reduzir emissões
Diretor do Centro Rattan Lal para Gestão e Sequestro de Carbono da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, o pesquisador lembra que o sistema alimentar responde por parcela importante das emissões de gases de efeito estufa. Em sua avaliação, cerca de 30% das emissões associadas à atividade humana vêm desse sistema, e a produção agrícola representa uma fatia relevante desse total.
Lal considera possível manter o aquecimento global abaixo de 2°C, mas isso exige recuperar o carbono perdido pelos solos. Nas Américas, parte expressiva das áreas agrícolas perdeu cerca de 30% de seu solo. Na Ásia, onde o cultivo se estende por milhares de anos, aproximadamente 75% do carbono orgânico original foi consumido ao longo do tempo.
Pastagens degradadas devem voltar à vegetação
As pastagens degradadas são um dos principais alvos dessa proposta. Na Amazônia, áreas desmatadas para a formação de pastos perderam produtividade em razão do sobrepastejo e da falta de reposição de matéria orgânica. Lal resume o problema na chamada lei do retorno: tudo o que é retirado da terra precisa ser reposto.
Fertilizantes ajudam a manter a produção, mas não substituem a recuperação dos ciclos naturais do solo. Em áreas muito degradadas, o cientista defende o plantio de árvores e a recomposição da vegetação permanente. Segundo ele, dos cerca de 5,2 bilhões de hectares usados pela agropecuária no mundo, mais de 2 bilhões poderiam ser devolvidos à natureza, especialmente aqueles com baixa produtividade.
Produtores precisam receber pela conservação
A mudança, porém, não pode depender apenas da vontade dos agricultores. Lal defende mecanismos públicos de compensação para quem deixar de explorar áreas improdutivas ou altamente erodidas. Como referência, cita o Programa de Reserva de Conservação dos Estados Unidos, que pagou produtores para transformar terras vulneráveis em gramíneas e florestas, garantindo renda comparável à obtida com cultivos agrícolas.
Para o pesquisador, modelo semelhante poderia estimular a recuperação de pastagens degradadas no Brasil. A sociedade ganharia com a restauração ambiental, o sequestro de carbono, a proteção da água e a redução da erosão, enquanto o produtor seria remunerado por prestar um serviço ambiental.
Desperdício reduz a necessidade de produzir mais
Lal também questiona a ideia de que o mundo precise ampliar indefinidamente a produção. A humanidade produz cerca de 3,2 bilhões de toneladas de grãos por ano, mas aproximadamente 1 bilhão de toneladas é desperdiçado. Em frutas frescas, como mamão e manga, as perdas podem superar 60% em países do Sul da Ásia.
Reduzir essas perdas diminuiria a pressão sobre florestas, solos e recursos hídricos. O cientista também recomenda consumo de carne com mais moderação, sugerindo que a carne bovina não precisa estar presente diariamente na alimentação. Para ele, produzir com eficiência, recuperar o solo, evitar desperdícios e proteger a natureza são partes do mesmo compromisso: tornar a alimentação saudável também para o planeta.
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