Agricultoras familiares enfrentam barreiras no acesso à tecnologia e assistência, aponta estudo
Um levantamento recente, baseado no Censo Agropecuário de 2017, revela que as mulheres à frente de estabelecimentos da agricultura familiar possuem significativamente menos acesso a tecnologias produtivas e assistência técnica em comparação aos homens. O estudo destaca disparidades regionais e de raça, alertando para a necessidade de políticas mais direcionadas para promover a equidade no campo e garantir a autonomia econômica das agricultoras.

Divulgação
Apesar de representarem uma parcela significativa da força de trabalho no campo, as mulheres que gerenciam estabelecimentos da agricultura familiar no Brasil enfrentam um cenário de desigualdade no acesso a recursos essenciais. Um estudo aprofundado, que utilizou dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, o mais recente levantamento sobre o setor, aponta que agricultoras têm até a metade do acesso a tecnologias produtivas e assistência técnica quando comparadas aos homens em condições semelhantes. Elas são responsáveis pela gestão de quase 20% das propriedades rurais familiares do país, desempenhando um papel crucial na segurança alimentar e no desenvolvimento regional.
Menor acesso a tecnologia e suporte técnico
Os números levantados pelo estudo são reveladores e escancaram as barreiras enfrentadas. Apenas 11,2% dos estabelecimentos agrícolas dirigidos por mulheres recebem assistência técnica, uma proporção bem inferior aos 19,9% registrados nas propriedades administradas por homens. A diferença é ainda mais gritante no que diz respeito à mecanização: somente 4,2% dos estabelecimentos femininos contam com tratores, enquanto nas propriedades masculinas esse percentual salta para 13,2%.
A disparidade se estende a outras práticas agrícolas fundamentais. O uso de adubação, por exemplo, é reportado em 33,9% dos estabelecimentos geridos por mulheres, contra 44% naqueles liderados por homens. Similarmente, a correção do solo, essencial para a produtividade, é aplicada em 7,5% das propriedades femininas, em contraste com 14% das masculinas. Esses dados não apenas refletem uma lacuna no acesso, mas também indicam um potencial produtivo não plenamente explorado devido à falta de investimentos e suporte técnico para as agricultoras.
Contexto regional e diversidade de perfis
O estudo também oferece um panorama da presença feminina na agricultura familiar por região. O Nordeste se destaca, com mulheres à frente de 24% dos estabelecimentos, seguido pelo Norte (20%) e Centro-Oeste (18%). No Sudeste e Sul, esses percentuais são de 15% e 12%, respectivamente. Essa distribuição regional aponta para a diversidade de contextos e desafios que as agricultoras enfrentam, dependendo de onde estão localizadas no território brasileiro.
Além das questões de gênero, a análise revela diferenças significativas relacionadas à raça, especialmente no tamanho das propriedades. Entre os estabelecimentos dirigidos por indígenas, uma expressiva maioria de 70,8% possui até cinco hectares. Essa proporção é de 51% para propriedades lideradas por pessoas pretas e 46,1% para pessoas pardas. Em contraste, entre os estabelecimentos dirigidos por pessoas brancas, o percentual de propriedades com até cinco hectares cai para 28,6%. Essa estratificação ressalta a importância de abordagens que considerem a complexidade e a heterogeneidade da agricultura familiar para a formulação de políticas públicas mais eficazes.
Desmistificando a agricultura familiar homogênea
Para os pesquisadores, tratar a agricultura familiar como um grupo homogêneo pode levar a diagnósticos incompletos e, consequentemente, a soluções ineficazes. “Reconhecer a heterogeneidade da Agricultura Familiar é um passo importante para compreendermos as diferentes condições em que os agricultores produzem, onde estão as principais restrições e como elas se manifestam nos diferentes territórios”, pontua Barbara Frizo, autora principal do estudo. A pesquisa propõe três perfis distintos para o setor, baseados em características regionais: produtores do Norte e Nordeste, com áreas menores e menor acesso a assistência, crédito e mecanização; produtores do Sul e Sudeste, com condições relativamente mais favoráveis; e, por fim, produtores do Centro-Oeste, que apresentam um nível intermediário de acesso.
Essas diferenças, como alertam os pesquisadores, são cruciais, pois influenciam diretamente as condições de produção, as oportunidades de geração de renda e a autonomia econômica das agricultoras. A perpetuação dessas disparidades pode reforçar estruturas arbitrárias dentro da própria agricultura familiar, impedindo o pleno desenvolvimento do setor e a melhoria da qualidade de vida de milhares de famílias. É fundamental que os dados inspirem a criação de políticas públicas mais inclusivas e direcionadas, capazes de suprir as necessidades específicas de cada grupo e promover a equidade no campo brasileiro.
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