Planalto vê relatório dos EUA sobre Pcc e Cv como manobra eleitoral de Trump
Governo Lula avalia que acusação dos Estados Unidos sobre o combate ao PCC e ao CV tem cálculo eleitoral e menor risco político do que novas sanções contra ministros do STF. Executivo deve defender soberania e combate ao crime organizado na ONU.

Divulgação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que o relatório dos Estados Unidos que acusa o Brasil de falhar no enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho faz parte de uma manobra eleitoral de baixo custo para Donald Trump. Para integrantes do Planalto, a iniciativa busca explorar a segurança pública sem provocar o mesmo desgaste de sanções diretas contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
A leitura interna é que a pressão sobre o Judiciário brasileiro teria perdido força nos EUA. Além disso, novas medidas contra integrantes do STF poderiam gerar reação mais ampla no Brasil e favorecer politicamente Lula, especialmente diante da percepção negativa de parte do eleitorado em relação a Trump e ao secretário de Estado, Marco Rubio.
Sanções perdem força no cenário político
A possibilidade de ampliar o uso da Lei Magnitsky ganhou força após a divulgação de mensagens envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Moraes foi o primeiro ministro do STF sancionado pelos Estados Unidos em 2025. A hipótese, porém, perdeu espaço depois que novas comunicações também apontaram relações de Vorcaro com os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
Uma nova rodada de punições motivada por disputas internas do STF poderia ampliar o alcance da medida, mas também facilitaria a reação do governo brasileiro. O Planalto argumentaria que Washington interfere no Judiciário nacional e fere a soberania do país. Essa resistência é vista como um dos fatores capazes de conter medidas mais agressivas da administração republicana.
O cálculo político precisa considerar, porém, que parte relevante da população apoia o combate mais duro às facções. Pesquisas realizadas em 2026 indicaram maioria favorável à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. Em levantamento da Genial/Quaest, 60% dos entrevistados defenderam essa classificação no Brasil, enquanto 45% consideraram positiva a decisão adotada pelos Estados Unidos. O PoderData registrou 53% de aprovação à medida norte-americana.
Relatório aumenta tensão entre os governos
Divulgado em 15 de setembro de 2026, o relatório anual enviado pela Casa Branca ao Congresso afirma que o governo Lula não enfrentou adequadamente PCC e Comando Vermelho. O documento sustenta que as organizações teriam transformado o país em um “centro para o fluxo global de cocaína” e cobra uma resposta urgente do Executivo brasileiro. O texto, contudo, não classifica o Brasil como produtor ou rota de drogas.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública rejeitou a existência de falhas ou omissões no combate ao crime organizado transnacional. A pasta afirmou que o relatório desconsidera a cooperação entre Brasil e Estados Unidos e destacou medidas como a Lei Antifacção e o Programa Brasil contra o Crime Organizado.
Planalto aponta incoerências e defende soberania
O Executivo também sustenta que Lula entregou a Trump, em Washington, uma proposta brasileira de combate ao crime organizado que ainda não recebeu resposta. Integrantes do governo apontam contradições no documento, já que a Venezuela, anteriormente tratada pelos EUA como centro de atividades narcotraficantes, deixou de constar na lista e recebeu elogios. Cuba também não foi citada.
A principal preocupação do Planalto é que a classificação do crime organizado como ameaça à segurança nacional dos EUA possa abrir caminho para autorizações de uso da força à revelia do direito internacional. O governo compara o raciocínio ao processo que antecedeu a intervenção americana na Venezuela e resultou na captura de Nicolás Maduro.
Lula e Trump devem se encontrar na ONU
Temas políticos relacionados ao Brasil perderam espaço nas conversas entre Lula e Trump desde 2025. Parte das exigências apresentadas pelos EUA migrou para discussões comerciais, incluindo etanol, desmatamento ilegal e neutralidade competitiva do Banco Central, interpretada pelo governo brasileiro como uma referência ao Pix.
Lula embarca para Nova York em 20 de setembro e deve falar na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral da ONU em 22 de setembro. Trump está programado para discursar logo depois. Não há uma reunião bilateral agendada, mas a expectativa é de um cumprimento durante a troca de oradores.
O discurso de Lula ainda está em definição e deve durar cerca de 20 minutos. Paz e segurança, multilateralismo, clima, direitos humanos e combate ao crime organizado estão entre os temas previstos. A defesa da soberania e da democracia brasileiras também deve aparecer, sem menção direta a Trump ou aos Estados Unidos.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








