Desgaste dos três Poderes expõe crise de confiança no Brasil
Executivo, Congresso e Supremo enfrentam desgastes simultâneos e perda de confiança da população. O quadro amplia o risco institucional e dificulta a construção de acordos necessários para a governabilidade.

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O Brasil vive um momento de desgaste simultâneo nos três Poderes da República. O Executivo enfrenta dificuldades de articulação política, o Congresso acumula baixa confiança popular enquanto amplia sua influência sobre o Orçamento, e o Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise interna que expõe divisões entre os ministros.
Confiança institucional em queda
Levantamento Quaest realizado entre 10 e 13 de setembro apontou que 56% dos brasileiros não confiam no Supremo, 46% não confiam no Congresso e 41% não confiam na Presidência da República. Apenas 9% afirmaram confiar muito no STF, 7% no Congresso e 22% no Executivo federal.
O quadro indica que o problema não se limita ao confronto entre Brasília e a população. Há sinais de deterioração também dentro da Praça dos Três Poderes, onde a capacidade de negociar, decidir e manter legitimidade diante da sociedade se torna cada vez mais desafiadora.
Presidência depende de negociações permanentes
No presidencialismo brasileiro, a articulação com o Congresso sempre foi parte essencial da governabilidade. A fragmentação partidária, porém, tornou essa relação ainda mais complexa. Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou que 70% dos brasileiros enxergavam a relação entre o governo federal e o Legislativo mais como confronto do que como colaboração.
As disputas envolvem orçamento, prioridades de gasto e controle político. Em agosto, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o país enfrenta a etapa mais difícil dos ajustes necessários para lidar com a dívida pública, as despesas obrigatórias e o elevado volume de emendas parlamentares. A dívida bruta avançou mais de dez pontos percentuais do Produto Interno Bruto desde 2023.
Congresso ganha força sobre o Orçamento
Enquanto o Executivo perde capacidade de conduzir sozinho a agenda fiscal, o Congresso amplia seu protagonismo. O projeto orçamentário de 2027 chegou ao Legislativo reservando R$ 44,8 bilhões para emendas parlamentares individuais e de bancada, valor que ainda pode aumentar durante a tramitação com a inclusão de outras modalidades.
O cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas, avalia que as decisões sobre recursos no Congresso se tornaram “absolutamente personalizadas”, com forte concentração de influência nas lideranças das Casas legislativas. O paradoxo é que o Parlamento nunca teve tanto peso sobre a execução de verbas públicas, mas segue distante da confiança dos eleitores.
Eleitores não reconhecem seus representantes
Em março, o Datafolha constatou que 45% dos brasileiros não confiam no Congresso, enquanto apenas 5% dizem confiar muito na instituição. Somente 14% avaliaram o trabalho dos parlamentares como ótimo ou bom, e 39% classificaram o desempenho como ruim ou péssimo.
A distância entre representantes e eleitores aparece em outro dado. Em junho, 68% dos entrevistados não souberam citar o nome de um deputado federal em exercício, e 75% não conseguiram mencionar um senador. Cerca de dois em cada três também não se lembravam em quem haviam votado para esses cargos quatro anos antes.
Supremo enfrenta uma crise interna delicada
A deterioração da confiança no Supremo representa o ponto mais sensível do cenário atual. As investigações relacionadas ao Banco Master provocaram confrontos públicos entre ministros, decisões conflitantes sobre a direção da Polícia Federal e a intervenção do presidente da Corte, Edson Fachin, para suspender determinações divergentes.
Em 15 de setembro, o tribunal voltou a expor suas divisões ao adiar a decisão sobre um pedido de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. As acusações ainda estão submetidas aos ritos legais e não equivalem a uma conclusão de responsabilidade, mas o episódio reforça a percepção de fragilidade institucional.
O risco maior está na perda de legitimidade
Conflitos entre os Poderes fazem parte da democracia e podem funcionar como mecanismos de fiscalização. O risco surge quando a disputa permanente mina a confiança na capacidade das instituições de cumprir seus papéis. Sem legitimidade, ficam mais difíceis os acordos necessários para administrar crises fiscais, aprovar reformas e preservar a estabilidade política.
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