Lula diz ter total confiança em Andrei Rodrigues
Em entrevista ao SBT Brasil, o presidente defendeu o diretor-geral da Polícia Federal após a crise envolvendo o relatório sobre conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Lula também classificou como institucional a relação entre Jorge Messias e André Mendonça.

Divulgação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quinta-feira (10), que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tem sua “total confiança” e o chamou de “companheiro”. A declaração foi feita em entrevista ao SBT Brasil e marca a primeira vez que Lula menciona nominalmente o chefe da corporação após a revelação de mensagens entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, nas quais Andrei é citado.
Defesa pública do diretor da PF
“O Andrei é um policial federal muito competente, tem mais de 30 anos de carreira, é um companheiro que possivelmente fez a maior busca e apreensão na história do crime organizado neste país, é o companheiro que fiscalizou o Banco Master, que prendeu o Vorcaro”, disse Lula. A fala reforça o vínculo político e institucional entre o presidente e o diretor-geral, que passou a ocupar o centro de uma disputa entre autoridades dos três Poderes.
Lula também foi perguntado sobre a atuação do advogado-geral da União, Jorge Messias, e sobre a proximidade dele com o ministro André Mendonça, responsável por determinar o afastamento cautelar de Andrei. Para o presidente, a relação entre os dois é “institucional”, e a atuação de Messias ocorreu sob sua “orientação”. “As pessoas querem que o presidente indique o diretor da Polícia Federal e depois ele vire um estranho ao presidente da República? Não! Ele é um funcionário do Estado brasileiro e, portanto, nós temos responsabilidade sobre ele”, afirmou.
Proximidade com Lula e trajetória
Andrei Rodrigues mantém relação próxima com Lula desde a campanha presidencial de 2022, quando atuou na segurança do petista. Antes disso, também havia sido responsável pela proteção da então presidente Dilma Rousseff durante a disputa eleitoral de 2010. Ele foi indicado ao cargo em dezembro de 2022 pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino, hoje ministro do STF.
O diretor-geral da PF também acompanha com frequência o presidente em viagens internacionais. Em três anos, Andrei passou 81 dias fora do país com Lula, segundo levantamento sobre a agenda presidencial. A proximidade ganhou relevância após a crise aberta no STF e a discussão sobre os limites da atuação do diretor-geral em investigações de interesse do governo e da Corte.
PF questiona atuação da AGU
A controvérsia ganhou novo capítulo porque a Polícia Federal procurou a Advocacia-Geral da União (AGU) para que a instituição adotasse medidas jurídicas contra decisões de Mendonça nas operações Compliance Zero e Sem Desconto, ambas sob relatoria do ministro no STF. Em relatório de inteligência divulgado em 3 de setembro, a PF afirmou que a AGU “optou por não interpor os recursos”.
Ao analisar a decisão, o relatório apresentou hipóteses, e não uma conclusão definitiva, para explicar a posição da AGU. Entre elas, apontou a possível “preservação de relação política” entre Messias e Mendonça, os gestos públicos de apoio do ministro à indicação de Messias para uma vaga no STF e uma “matriz religiosa comum” entre os dois, ambos evangélicos. O documento também listou explicações alternativas, como convicção jurídica sobre o não cabimento das medidas, cautela diante do custo de um confronto formal com um ministro do STF e avaliação das consequências políticas de uma atuação do Executivo.
A AGU contestou essa interpretação em 4 de setembro. Em nota, afirmou não ter “competência constitucional ou legal” para atuar nos aspectos da persecução penal pretendidos pela PF e sustentou que a recusa aos pedidos foi baseada em critérios técnicos e jurídicos. A instituição acrescentou que a decisão não representou inércia: Messias teria buscado interlocução com Mendonça e com o presidente do STF, Edson Fachin, para construir uma solução institucional às divergências. Segundo a AGU, não há precedente na história da instituição para a atuação requerida pela PF.
A crise chegou ao plenário do STF
O conflito começou em 1º de setembro, quando Mendonça tornou público um relatório da PF que registrava conversas entre Vorcaro e Moraes. A apuração mencionou contratos milionários com o escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, e diálogos sobre investigações relacionadas a fraudes no banco. Mendonça pediu que Fachin levasse o caso ao plenário. No mesmo dia, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório, alegando que a iniciativa teria interferido nas investigações.
Em 4 de setembro, Fachin unificou os dois pedidos em uma petição única e estabeleceu prazo para que Mendonça, Moraes, Gonet e Andrei prestassem esclarecimentos. Em 8 de setembro, ao identificar ilegalidades na produção do relatório de inteligência, Mendonça determinou o afastamento cautelar do diretor-geral da PF. A AGU recorreu da decisão no mesmo dia. Na manhã de 9 de setembro, Flávio Dino, em articulação com o Palácio do Planalto, determinou a reintegração de Andrei, contrariando a decisão de Mendonça.
Próximos passos no Supremo
Depois disso, Fachin revogou as duas decisões que tratavam do afastamento de Andrei Rodrigues, mantendo-o, na prática, à frente da Polícia Federal. O presidente do STF também retirou Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e levou ao plenário o pedido de Mendonça para investigar Moraes. Os ministros devem analisar em 15 de setembro, em sessão aberta, se haverá abertura de um novo flanco investigativo contra o ministro. O desdobramento coloca em teste os limites de atuação da PF, da AGU, do Palácio do Planalto e do próprio STF.
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