Brasil tem condições de evitar austeridade fiscal sem cortes sociais, diz coordenador de Lula
José Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha petista, rejeita propostas de ajuste recessivo e defende eficiência nos gastos públicos como alternativa à crise fiscal. Reservas internacionais e liquidez do Tesouro dariam ao país margem para enfrentar desafios sem medidas drásticas.

O Brasil não enfrenta uma crise fiscal que exija medidas de austeridade, segundo José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em posicionamento firme, o também ex-presidente da Petrobras afirmou que o ajuste das contas públicas deve se basear na eficiência dos gastos, e não em cortes que penalizem políticas sociais.
Em análise técnica, Gabrielli destacou as reservas internacionais do país, superiores a US$ 300 bilhões, e o colchão de liquidez do Tesouro Nacional, suficiente para cobrir quase oito meses de vencimentos da dívida pública. Esses indicadores, na visão dele, conferem ao Brasil condições de enfrentar os desafios fiscais sem recorrer a medidas recessivas, como as defendidas por setores do mercado financeiro.
Entre as propostas criticadas pelo coordenador petista estão o congelamento real do salário mínimo e a redução de gastos obrigatórios com saúde e educação. "Essas duas medidas são praticamente inaceitáveis para um governo comprometido com a redução das desigualdades e a ampliação dos direitos sociais", argumentou. Segundo ele, tais cortes não apenas enfraqueceriam a proteção social, mas também teriam impacto negativo na demanda agregada, prejudicando a retomada econômica.
Apesar de descartar austeridade, Gabrielli admitiu a necessidade de aperfeiçoar a gestão das despesas públicas. Entre as alternativas apresentadas, citou a revisão de subsídios considerados ineficientes e a reavaliação da distribuição de emendas parlamentares no Orçamento, que historicamente ampliam gastos sem necessariamente gerar benefícios concretos para a população. "Há espaço para cortar desperdícios, não para reduzir direitos", afirmou.
A discussão ganha relevância em um contexto de crescente preocupação do mercado com a trajetória da dívida pública. Dados recentes do Banco Central revelam que a dívida bruta do governo brasileiro atingiu 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, alta de mais de 10 pontos percentuais desde o início do atual mandato de Lula, em 2023. Esse movimento reflete não apenas o aumento dos gastos durante a pandemia, mas também a queda na arrecadação em um cenário de crescimento modesto.
O debate sobre a política fiscal ganhou ainda mais fôlego após jantar realizado no Palácio da Alvorada, que reuniu empresários, investidores e o presidente Lula. O principal ponto de discussão foi a taxa Selic, que, em patamares elevados, onera o custo de financiamento das empresas e compromete a competitividade da indústria nacional. Gabrielli também questionou a meta de inflação do Banco Central, atualmente fixada em 3% ao ano. "Em um contexto global de incertezas e pressões inflacionárias persistentes, uma meta tão rígida como essa é irrealista", avaliou. Para ele, a busca por maior eficiência nos gastos públicos pode ser mais eficaz para o equilíbrio fiscal do que o endurecimento das regras de despesas.
Por enquanto, a estratégia fiscal para um eventual quarto mandato de Lula permanece em discussão. Segundo informações não confirmadas, o presidente tem avaliado diferentes propostas antes de definir a política econômica caso seja reeleito em outubro. A indefinição, contudo, não impede que o governo sinalize seu compromisso com um modelo de desenvolvimento que priorize o crescimento com inclusão social, sem abrir mão de instrumentos de proteção ao trabalhador e às camadas mais vulneráveis da população.



