Arte abre caminho para cuidado e diálogo sobre saúde mental
A criação artística aparece como forma de expressão, presença e reconstrução, sem substituir terapia ou tratamento profissional. A reflexão também resgata trajetórias como as de Yayoi Kusama e Nise da Silveira.

Divulgação
Arte como forma de escuta
Setembro costuma集中ar campanhas e debates sobre saúde mental. O assunto, porém, ganha profundidade quando é abordado para além dos alertas e das estatísticas. A criação artística pode funcionar como linguagem, acolhimento e caminho para elaborar sentimentos difíceis de explicar.
A trajetória de Yayoi Kusama, que morreu aos 97 anos, mostra como arte e existência podem estar profundamente conectadas. Marcada por repetições, cores vibrantes e composições hipnóticas, sua obra refletiu parte de seu sofrimento psíquico e tornou-se uma forma de permanecer em diálogo com o mundo.
No Brasil, Nise da Silveira foi pioneira ao defender a expressão artística como instrumento de cuidado e reconstrução de subjetividades. Em um período dominado por práticas psiquiátricas agressivas, a médica compreendeu que imagens, símbolos e gestos podiam revelar vivências para as quais as palavras nem sempre são suficientes.
Recomeço pelos desenhos
Essa possibilidade de comunicar sentimentos também pode ser vivida na intimidade de cada pessoa. As fragilidades emocionais surgiram na infância, após a perda da mãe aos cinco anos. Crescer no interior, em um contexto que dificultava o acesso à psicologia, tornou mais difícil nomear a tristeza, a ansiedade e a exaustão. A compreensão começou aos 24 anos, depois de um burnout severo no primeiro emprego após a graduação.
Naquele momento, a pintura já havia ficado de lado. Entre casamento, contas, trabalho e responsabilidades, a produção constante parecia indicar que tudo estava bem. A ruptura aconteceu quando o corpo e a mente deixaram de acompanhar o ritmo imposto. No acompanhamento psicológico, surgiu uma sugestão simples: voltar a desenhar.
Com lápis aquareláveis e folhas, o recomeço veio desajeitado, mas possível. Pouco tempo depois, os desenhos ganharam encomendas, feiras, alunas e novas relações. Surgiu o empreendedorismo artístico, embora a transformação mais importante não tenha sido profissional.
Criar não elimina a necessidade de cuidado
A aquarela ofereceu um espaço de presença, feito de água, pigmentos, camadas e imprevistos. O suposto erro passou a ser visto como parte do processo e, às vezes, como detalhe essencial da obra. A prática não substituiu terapia, atendimento médico ou medicação, mas tornou-se uma aliada no autoconhecimento e na reconstrução da rotina.
O percurso também incluiu recaídas, mudanças de medicamentos, dúvidas e tentativas de interromper tratamentos antes do momento adequado. Após um puerpério difícil, ficou evidente que os cuidados precisavam ser retomados. Buscar atendimento, rever hábitos e aceitar apoio foram atitudes de responsabilidade, não sinais de fraqueza.
A Organização Mundial da Saúde tem reunido evidências sobre a contribuição das atividades artísticas para o bem-estar, a promoção da saúde e o enfrentamento de diferentes condições. Revisões com milhares de estudos apontam benefícios em diversas dimensões da vida, embora a arte não deva ser tratada como cura universal.
Criar manualmente lembra que cada pessoa é mais do que um diagnóstico. Também ajuda a reduzir a culpa de quem precisa de ajuda. Saúde mental não é defeito de caráter, e ninguém precisa carregar tudo sozinho. Recomeçar quantas vezes forem necessárias também é um gesto de coragem e de valorização da vida.
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