Uber reduz presença na África e amplia incerteza entre motoristas
Uber deixa Nigéria e Uganda e passa a operar em apenas quatro países africanos. Combustível caro, inflação, desvalorização cambial e disputas com concorrentes pressionam motoristas e passageiros.

Divulgação
A Uber confirmou a saída da Nigéria e o encerramento das operações em Uganda, reduzindo sua presença na África a quatro países: Egito, Gana, Quênia e África do Sul. A decisão encerra mais de uma década de atuação no mercado nigeriano, o mais populoso do continente, e reforça os desafios enfrentados pelas plataformas de transporte em economias pressionadas por custos elevados e moedas instáveis.
Retirada de mercados pressionados
O movimento acontece depois de a companhia também deixar a Costa do Marfim e a Tanzânia no último ano. A empresa afirmou que sua prioridade imediata é apoiar motoristas, passageiros e equipes locais durante a transição, mas não detalhou como essa assistência será oferecida.
A Uber enfrenta concorrência crescente de Bolt, inDrive e SafeBoda, presentes na Nigéria, em Uganda e em outros países africanos. A disputa ocorre em um cenário de margens apertadas, aumento dos custos operacionais e necessidade de manter tarifas acessíveis para uma base de usuários sensível a reajustes.
Comissões reduzem o rendimento dos motoristas
Motoristas relatam que as tarifas cobradas pelas plataformas deixaram de ser sustentáveis. A Uber retém entre 20% e 25% do valor de cada corrida, percentual que passa a representar perda maior quando somado ao preço dos combustíveis, à inflação, à manutenção dos veículos e às taxas cobradas em aeroportos e áreas de espera.
Abbas Olamide, que trabalhava em Abuja, citou o exemplo de uma corrida de 30 mil nairas, da capital nigeriana ao aeroporto. Após a comissão da plataforma, ainda era necessário pagar taxas locais e aguardar outro passageiro, reduzindo significativamente o valor disponível ao final do dia. Samuel Olatunji, motorista em Lagos, informou que precisará recorrer a outros aplicativos para manter uma renda estável, mas espera receber menos do que recebia anteriormente.
Dólar contra naira
A Uber não apresentou uma explicação detalhada para a retirada. A decisão, porém, ocorre em um contexto de inflação de dois dígitos em várias economias africanas, queda do poder de compra e desvalorização da naira. Analistas apontam um desequilíbrio estrutural: parte dos custos das plataformas está relacionada ao dólar, enquanto a receita dos motoristas depende da moeda local.
Ikemesit Effiong, sócio da consultoria SBM Intelligence, avalia que o aumento dos gastos com combustível, manutenção e seguros fez as tarifas subirem mais rapidamente do que a capacidade dos passageiros de pagar pelo serviço. Apesar de o mercado nigeriano de transporte por aplicativo ser estimado em cerca de 450 milhões de dólares por ano, a rentabilidade permanece pressionada.
Impacto para passageiros e concorrentes
A saída da Uber também afeta usuários que consideravam o serviço uma opção segura e confiável. Em Lagos, Mary-Esther Anele afirmou que precisará buscar alternativas e pode reduzir suas viagens diante do aumento esperado nos custos de transporte.
O recuo da empresa levanta dúvidas sobre a permanência em outros mercados africanos, possíveis mudanças nas políticas de preços e a reação dos concorrentes. Enquanto isso, motoristas buscam alternativas para compensar a perda de corridas, e plataformas como a inDrive ganham espaço ao permitir negociação direta entre passageiros e profissionais.
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