Favelas representam desafio de R$ 300 bilhões para o mercado de seguros
Com 17,2 milhões de moradores e renda anual estimada em R$ 300 bilhões, as favelas brasileiras representam um mercado relevante, mas ainda pouco atendido pelos seguros. Baixa confiança, preços inadequados e falta de representação dificultam a inclusão.

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Uma despesa que chega no momento mais difícil
A morte da sobrinha da assistente administrativa Helen de Araújo, moradora de Paraisópolis, em São Paulo, mostrou como um imprevisto pode se transformar rapidamente em uma crise financeira. Sem dinheiro reservado, a família precisou se unir para pagar o velório e o enterro. Meses depois, Helen contratou um seguro pessoal com assistência funerária, motivada pela necessidade de enfrentar emergências sem depender exclusivamente de ajuda de parentes.
O caso ilustra um dilema cada vez mais observado pelo setor: quem tem menor margem para absorver perdas é, ao mesmo tempo, quem mais precisa de proteção. Nas favelas, riscos como roubo, acidentes, doenças e perda de equipamentos de trabalho podem comprometer não apenas o patrimônio, mas também a renda das famílias.
Renda expressiva e proteção ainda limitada
As favelas brasileiras reúnem 17,2 milhões de pessoas em 6,6 milhões de domicílios. Juntas, essas famílias movimentam cerca de R$ 300 bilhões em renda própria por ano, valor superior à economia de 22 estados brasileiros e próximo ao Produto Interno Bruto da Bolívia. O montante não representa necessariamente o potencial de contratação de seguros, mas revela a dimensão econômica de um público ainda pouco atendido pelo setor.
Em 2025, os microsseguros arrecadaram R$ 1,46 bilhão no país, cerca de 1% dos seguros de danos. O resultado caiu 10,9% em relação a 2024, enquanto esse segmento do mercado cresceu 7,32%. Como o microsseguro é uma categoria regulatória da Susep, o número não inclui todas as formas de proteção adquiridas por famílias de menor renda. Ainda assim, a diferença evidencia o desafio de transformar demanda potencial em contratos em escala.
O risco já faz parte da rotina
Levantamentos com moradores de favelas indicam que a percepção de vulnerabilidade é alta. Cerca de 62% afirmam ter enfrentado situações que seriam mais fáceis de administrar com algum seguro. Entre os problemas mais comuns estão roubo de celular, quebra de equipamentos usados para trabalhar, perda de renda por doença ou acidente e despesas com funeral sem recursos reservados.
Esses riscos têm características próprias. Uma moto não é apenas um bem de consumo para quem trabalha com entregas. Uma batedeira, ferramentas de manicure ou um computador podem ser essenciais para a sobrevivência de pequenos empreendedores. Por isso, a proteção precisa considerar a função econômica dos bens e a realidade de quem vive de atividades informais ou de renda variável.
Barreiras vão além do preço
A baixa adesão não se explica apenas pela falta de dinheiro. Muitos moradores conhecem seguros, mas não os veem como produtos feitos para sua realidade. A linguagem complexa, a desconfiança sobre o pagamento de indenizações, a dificuldade de acesso aos canais de venda e a ausência de representação nas campanhas também afastam possíveis clientes.
Para especialistas do setor, as seguradoras precisam oferecer coberturas mais simples, pagamentos acessíveis e processos de contratação e sinistro mais transparentes. Produtos voltados a veículos mais antigos, equipamentos profissionais, assistência funerária e proteção contra interrupção de renda são exemplos de soluções que podem dialogar melhor com esse público.
Inclusão exige confiança e presença local
A expansão do seguro nas favelas depende de uma combinação entre preço justo, distribuição adequada e construção de confiança. Parcerias com associações comunitárias, comércio local, plataformas digitais e instituições já presentes nessas áreas podem ajudar a aproximar as empresas dos moradores.
O desafio não é convencer a população de que riscos existem. Eles já fazem parte do cotidiano. A tarefa do mercado é demonstrar, na prática, que a proteção também foi feita para quem vive nas favelas e transforma cada imprevisto em uma ameaça direta à estabilidade financeira da família.
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