Argentina perde 31.342 empresas durante governo Milei
Levantamento registra queda de 6,1% no número de companhias e perda de 245,6 mil postos privados formais. A inflação desacelera para 33,5%, mas indústria, emprego e salários continuam pressionados.

Divulgação
A Argentina registrou a perda líquida de 31.342 empresas desde que Javier Milei assumiu a Presidência, em novembro de 2023. A redução corresponde a 6,1% do total de companhias registradas no país e abrange até junho de 2026. Para a Fundar, centro de pesquisas argentino, o encolhimento do tecido empresarial foi semelhante ao observado durante a pandemia.
Emprego formal recua
O fechamento de empresas acompanha a contração do mercado de trabalho formal. Um levantamento do Centro de Economia Política Argentina apontou perda de 245,6 mil postos privados registrados, queda de 3,9%. Parte dessa redução foi compensada pelo aumento de 169 mil trabalhadores autônomos, alta de 8,3%, indicando que atividades sem a mesma proteção trabalhista ganharam espaço.
A taxa de desemprego reached 7,9% da população economicamente ativa no primeiro semestre de 2026, alta de 0,3 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, o Indec. O crescimento do trabalho autônomo ameniza os números, mas não elimina a perda de vagas com registro e estabilidade.
Indústria acumula retração
A atividade industrial também enfrenta dificuldades. Nos 12 meses encerrados em julho, o setor recuou 2,6%. A produção de equipamentos eletrônicos e médicos apresentou o pior desempenho, com queda acumulada de 19,1% em um ano. Entre os segmentos pesquisados, a maioria registrou redução no número de empresas.
A província de Neuquén aparece como exceção. A exploração de gás natural em Vaca Muerta tem fortalecido as exportações e sustentado parte da atividade econômica regional, criando um contraste com setores mais dependentes do mercado interno.
Inflação cai, mas estabilidade é frágil
O principal avanço macroeconômico do governo Milei está na desaceleração dos preços. A inflação acumulada em 12 meses caiu de 289% em abril de 2024 para 33,5% em agosto de 2026. O resultado foi obtido em um cenário de forte ajuste fiscal, compressão do consumo e redução do poder de compra dos salários.
Para o economista Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, essa estabilidade ainda é vulnerável. Na avaliação dele, a queda da inflação depende de cortes de gastos públicos, empréstimos bilionários do Fundo Monetário Internacional e de uma moeda sobrevalorizada. O peso mais forte barateia produtos importados e ajuda a conter preços, mas reduz a competitividade da indústria argentina.
A dívida externa de US$ 350 bilhões também representa um risco adicional. O endividamento limita a capacidade de manobra do governo e aumenta a dependência de financiamento internacional, especialmente em um cenário de crescimento ainda instável.
Milei defende ajuste econômico
O presidente Javier Milei rebate as críticas e destaca a melhora da inflação, o crescimento das exportações e a recuperação do consumo privado. O Produto Interno Bruto argentino avançou 4,4% em 2025, após contrair 1,3% em 2024. Segundo o governo, esses resultados mostram que a economia começa a responder ao programa de desregulamentação e contenção de gastos.
Milei também argumenta que o mercado continua criando empresas, embora em ritmo inferior ao dos fechamentos, e rejeita a ideia de colapso generalizado do emprego. Em sua visão, empresas que dependem de privilégios e transferências do Estado precisam se adaptar ou sair do mercado.
Desafio entre preços e crescimento
Publicações favoráveis à agenda liberal de Milei também passaram a apontar riscos do ajuste. A revista britânica The Economist destacou que os salários reais permanecem abaixo do nível registrado antes da posse do presidente e que postos formais continuam desaparecendo.
O quadro argentino revela, portanto, uma economia dividida. A inflação desacelera e algumas contas macroeconômicas melhoram, mas o setor produtivo ainda sofre com juros, demanda interna reduzida, perda de competitividade e menor geração de emprego formal. O principal desafio de Milei será transformar o controle de preços em crescimento sustentável sem aprofundar a deterioração social.
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