Ao menos 43 empresas deixaram o Brasil em 11 anos e meio
Levantamento aponta a saída de ao menos 43 empresas ou grupos estrangeiros do Brasil entre maio de 2015 e setembro de 2026. Reestruturações globais, custos, concorrência e características do mercado local estão entre os fatores que influenciaram os desinvestimentos.

Divulgação
Ao menos 43 empresas ou grupos empresariais estrangeiros deixaram o Brasil nos últimos 11 anos e meio. O movimento alcançou segmentos diversos, como automobilístico, alimentação, eletrônicos, varejo de beleza e moda, medicamentos, cimento, louças e metais.
O recorte considera companhias que encerraram a produção, fecharam fábricas ou venderam suas operações no país entre maio de 2015 e setembro de 2026. As decisões tiveram origens variadas, mas mostram como o ambiente de negócios brasileiro é avaliado dentro das estratégias globais de grandes corporações.
Estados Unidos lideram o número de saídas
Empresas norte-americanas representam o maior grupo, com 16 retiradas. As britânicas aparecem em seguida, com seis, seguidas pelas japonesas, com quatro. Companhias alemãs e francesas somam três saídas cada, enquanto espanholas, colombianas e suíças registraram duas baixas por nacionalidade.
Também há casos de empresas da China, Holanda, Índia, Israel e México. A variedade de países e setores indica que o fenômeno não esteve restrito a uma indústria específica ou à estratégia de empresas de uma única origem.
Reestruturações se misturam a custos e riscos
Em grande parte dos casos, as empresas apresentaram as saídas como resultado de reestruturações globais, revisões de portfólio ou mudanças na estratégia corporativa. Em outros episódios, prejuízos, dificuldades financeiras e crises internacionais que alteraram padrões de consumo tiveram papel decisivo.
Dezessete saídas ocorreram durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, quando a economia brasileira enfrentou queda de atividade, incerteza e redução do consumo em diversos segmentos. O choque sanitário acelerou avaliações que já estavam em curso e tornou algumas operações menos viáveis.
Condições próprias do Brasil também influenciaram decisões de desinvestimento. Entre os fatores citados por empresas estão a carga tributária, os custos de importação, a volatilidade do dólar, o Custo Brasil e os riscos associados ao cenário econômico local.
Montadoras e varejistas ilustram o desafio
A Ford deixou de produzir veículos no Brasil em 2021 e, na ocasião, mencionou o ambiente econômico desfavorável e os impactos da pandemia. A decisão reacendeu o debate sobre a complexidade tributária, os custos logísticos e a competitividade da indústria automotiva instalada no país.
A Mercedes-Benz havia encerrado a produção de veículos no ano anterior, após queda nas vendas e pressão do dólar. No varejo de cosméticos, a britânica Lush deixou o país pela segunda vez, em 2018, apontando impostos elevados, recessão prolongada e instabilidade política como obstáculos à continuidade dos investimentos.
Nem todas as companhias atribuíram a saída diretamente às condições brasileiras. A Sony mencionou o ambiente de mercado e as perspectivas para seus negócios quando encerrou a produção de eletrônicos em 2020. A Holcim, ao vender suas operações de cimento para a CSN em 2021, afirmou que priorizaria países com moedas mais fortes e maior rentabilidade.
Concorrência e consumo pesaram no varejo
O varejo também revelou dificuldades de adaptação ao mercado brasileiro. O Walmart enfrentou concorrentes consolidados e não conseguiu transformar sua estratégia de preços baixos todos os dias em uma proposta suficientemente atraente para o consumidor local. A companhia vendeu suas operações no Brasil em 2019.
A Forever 21, por sua vez, encontrou nos impostos, nos custos de importação e na infraestrutura desafios para manter preços competitivos. A rede também teve dificuldade de ampliar seu modelo de fast fashion em um mercado pressionado por concorrentes nacionais e pelas chinesas Shein e Shopee, deixando o país em 2022.
Reforma tributária pode melhorar o ambiente
Para o economista Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e da FGV, a decisão de uma empresa deixar o Brasil normalmente resulta da combinação de vários fatores. Ele destaca os juros elevados, o alto custo do capital, a litigiosidade trabalhista e a complexidade tributária como pontos que reduzem o interesse de investidores.
Pessôa avalia que a reforma tributária pode melhorar o ambiente de negócios a partir de 2030, quando estiver plenamente em funcionamento. Para ele, porém, o país também precisará enfrentar os juros altos e a baixa crescimento da produtividade do trabalho, agenda considerada essencial para tornar o Brasil mais competitivo na disputa por investimentos.
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