Apostas on-line crescem entre jovens e ampliam risco de dependência
Jovens têm iniciado apostas cada vez mais cedo, impulsionados pelo acesso fácil pelo celular. Especialistas alertam para riscos de dependência, endividamento e danos à saúde mental.

Divulgação
O avanço das apostas on-line entre jovens tem provocado uma mudança perceptível na busca por tratamento. Grupos de apoio relatam atendimento a adolescentes de 14 anos e a adultos jovens que já apresentam sinais de compulsão, perdas financeiras e problemas de saúde mental relacionados às bets.
Um levantamento realizado com 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio apontou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Dados internacionais do Unicef, divulgados em 2021, já indicavam exposição precoce semelhante, com uma em cada cinco pessoas começando a apostar até essa idade.
Acesso pelo celular amplia a exposição
A principal mudança em relação aos jogos do passado é a disponibilidade permanente. Com um celular e conexão à internet, o usuário pode apostar a qualquer hora, sem precisar frequentar estabelecimentos físicos. Essa facilidade reduz barreiras e aumenta a frequência de contato com plataformas de jogo.
Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) também alertou para a presença de publicidade em canais voltados ao público infantil, capaz de explorar a imaturidade financeira de crianças e adolescentes. A exposição a influenciadores e conteúdos promocionais contribui para normalizar as apostas como forma simples de ganhar dinheiro.
Para especialistas, o risco é maior nessa fase porque o cérebro ainda está em desenvolvimento. As regiões associadas à sensação de prazer respondem com intensidade aos ganhos, enquanto as áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos só amadurecem plenamente depois dos 20 anos.
Ganhos rápidos criam falsa percepção de controle
Gustavo Pereira, de 24 anos, começou a apostar on-line aos 18 e relatou ter perdido R$ 500 mil em seis anos. Ele contou que chegou a transformar pequenos valores em quantias elevadas, mas perdeu tudo ao continuar apostando na tentativa de repetir os ganhos.
Atualmente há cerca de dois meses sem apostar, Gustavo tenta reconstruir a vida vendendo café nas ruas de Lages, em Santa Catarina. Ele também publica relatos sobre o processo de recuperação e sobre os impactos da dependência, incluindo depressão, crises de pânico e perda da noção do valor do dinheiro.
Endividamento atinge orçamento e estudos
O problema não se limita aos casos mais graves. O relatório do Ibict estimou que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, e quase metade teria ficado endividada. Para muitos usuários, as perdas comprometem contas básicas, alimentação, moradia e planos de longo prazo.
Dados da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior também mostram reflexos na educação. Entre os entrevistados, 34% disseram que precisariam deixar de gastar com apostas para iniciar uma graduação em 2026. Entre estudantes do ensino superior, 14% relataram atrasar mensalidades ou trancar o curso por causa das bets.
O diretor do Ibict, Tiago Braga, destaca que apostas on-line não devem ser tratadas como investimento, mas como gasto. Quanto maior o valor destinado aos jogos, menor será a reserva para necessidades cotidianas e objetivos futuros, como educação, moradia e segurança financeira.
Rede de apoio passa a atender adolescentes
Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, afirma que o perfil dos participantes mudou. Antes, o jogo exigia deslocamento e contato com máquinas físicas. Hoje, segundo ele, o cassino está no bolso, acessível durante o dia e a noite.
O grupo recebe jovens e adultos em diferentes fases da dependência. Alguns estão há meses sem apostar; outros passaram mais de um ano em abstinência. Relatos de participantes apontam que muitos procuram ajuda somente depois de acumular dívidas, perder relações de confiança e enfrentar pensamentos suicidas.
Para especialistas, enfrentar o crescimento das bets exige combinação de regulação da publicidade, orientação sobre educação financeira, acompanhamento psicológico e apoio familiar. O alerta central é que a facilidade de acesso não torna o jogo inofensivo: para uma parcela dos usuários, ele pode se transformar rapidamente em dependência.
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