New Holland sente o peso do clima e conflitos: vendas globais devem demorar a se recuperar
A fabricante de máquinas agrícolas New Holland, parte da CNH Industrial, enfrenta um cenário global de incertezas que afeta suas vendas. Com o clima extremo na Europa, a guerra na Ucrânia e a pressão sobre os preços das commodities, a empresa prevê uma recuperação gradual que pode levar de dois a três anos, impacto sentido também no mercado brasileiro.

Divulgação
O cenário de incertezas no mercado global tem levado produtores agrícolas a pisar no freio quando o assunto é investimento em novas máquinas. Essa cautela tem um impacto direto no desempenho de gigantes do agronegócio, e a New Holland, renomada fabricante de máquinas agrícolas pertencente ao grupo CNH Industrial, não escapou dessa realidade. A empresa projeta que o ritmo de vendas levará alguns anos para ser retomado em sua plenitude.
Pim Van Vynckt, gestor global de produto de colheita da New Holland, compartilhou a visão da empresa sobre o futuro próximo. “Olhando para projeções atuais, e com base no que ouvimos de nossas equipes de mercado, parece que atingimos o fundo do poço [nas vendas]. Temos uma perspectiva de recuperação gradual em dois ou três anos”, afirmou o executivo. O balanço financeiro do segundo trimestre da CNH Industrial já reflete essa conjuntura, com a receita de vendas de máquinas agrícolas mantendo-se estável em US$ 3,2 bilhões, mas registrando quedas significativas na Europa: 11% na venda de tratores e 1% nas colheitadeiras.
Clima extremo e instabilidade política castigam a Europa
A agricultura europeia tem sido particularmente castigada por uma série de fatores adversos. Durante uma visita à fábrica da New Holland em Zedelgem, na Bélgica, em setembro, Van Vynckt destacou os problemas. “O principal desafio para nós está na previsão de baixa produtividade [na agricultura]. Além disso, há uma pressão contínua sobre os preços das commodities. Como o nosso negócio depende da lucratividade dos clientes, o resultado desses agricultores é determinado pela combinação entre produtividade e preços das commodities”, explicou. Uma onda de calor, por exemplo, derrubou a produtividade em diversos países do continente, como a França, que é um dos maiores mercados para as colheitadeiras da companhia.
A restrição hídrica na Europa, somada aos desafios geopolíticos, agrava o quadro. Na França, o Ministério da Agricultura estimou a safra de milho em 7,3 milhões de toneladas, um volume que, se confirmado, representaria a menor produção desde 1980. “Os preços das commodities estão em leve recuperação, mas, em alguns mercados como a França, não compensam as perdas sofridas pelos clientes. É preciso encontrar um equilíbrio para eles aqui na Europa, entre os custos de insumos e o retorno obtido com a venda de seus produtos”, acrescentou Van Vynckt. Além disso, a escalada da guerra na Ucrânia, com ataques a portos no Mar Negro, impõe severas limitações logísticas e de exportação de grãos, impactando diretamente as projeções de vendas de máquinas na região.
Desaceleração também chega ao Brasil e América do Sul
A tendência de enfraquecimento do mercado de máquinas agrícolas não se restringe ao Velho Continente. Na América do Sul, as vendas de tratores da CNH registraram queda de 8% no segundo trimestre, enquanto as de colheitadeiras apresentaram um recuo ainda mais acentuado, de 29%. No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) projeta uma retração de 20% nas vendas até 2026, sinalizando um período desafiador também para o agronegócio nacional.
Busca por eficiência altera o perfil de compra de equipamentos
As projeções de longo prazo para o mercado brasileiro indicam uma recuperação lenta, tanto para tratores quanto para colheitadeiras. No entanto, Pim Van Vynckt aponta para uma mudança significativa no comportamento dos produtores. “Algo importante que observamos no Brasil e em todo o mundo, é essa rápida transição na hora da compra de máquinas, visando maior eficiência. Em vez de operar com 20 colheitadeiras, você reduz a frota para 10 ou 15 máquinas, assim, seu custo operacional acaba sendo menor”, observou o executivo. Essa busca por otimização e redução de custos operacionais influencia diretamente o volume de novas aquisições.
Sean Lennon, líder de produto da New Holland para Europa, Oriente Médio e África, complementa essa análise, descrevendo uma “situação difícil” para o mercado de colheitadeiras nas últimas duas temporadas, especialmente no segmento de menor porte, com potência de até 313 cavalos. “É provável que os clientes estejam adiando a renovação até que a lucratividade melhore”, ponderou. Por outro lado, Lennon vê um horizonte mais favorável para as colheitadeiras da linha intermediária da New Holland, acima de 500 cavalos, onde os clientes seguem um ciclo de renovação de frota mais regular, a cada três, quatro ou cinco anos, garantindo uma demanda mais estável para esse segmento.
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