Machadinho (RS): a receita do campo que une erva-mate, mel e sustentabilidade
Em Machadinho, no Nordeste do Rio Grande do Sul, produtores rurais estão redefinindo a agricultura familiar ao integrar o cultivo tradicional de erva-mate com a apicultura e o manejo florestal. Essa abordagem diversifica a renda das famílias e, ao mesmo tempo, fortalece a preservação ambiental, destacando o papel essencial das abelhas na polinização e na manutenção da biodiversidade local.

Divulgação
No coração do Nordeste gaúcho, o município de Machadinho desponta como um exemplo vibrante de como a agricultura familiar pode inovar e prosperar. Longe de se prender a monoculturas, os produtores locais estão desvendando uma fórmula de sucesso que une tradição e sustentabilidade: a combinação da erva-mate com o cultivo de eucaliptos e a criação de abelhas. Essa diversificação inteligente não apenas distribui a renda ao longo do ano, mas também contribui ativamente para a manutenção das características naturais e da rica biodiversidade da região.
A erva-mate como patrimônio e força econômica
A erva-mate, ingrediente primordial do chimarrão, ocupa um lugar de destaque nesse sistema produtivo. Mais do que uma atividade econômica tradicional, ela representa um pilar da identidade cultural gaúcha, sendo reconhecida em 2023 como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. Em Machadinho, a produção é ainda mais valorizada pela Indicação de Procedência Erva-Mate Região de Machadinho, um selo que garante a origem e a qualidade do produto cultivado em dez municípios do Nordeste gaúcho. O estado é o segundo maior produtor nacional de folha verde, e suas exportações em 2024 alcançaram impressionantes US$ 79,9 milhões, com o Uruguai sendo o principal destino, conforme levantamento da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (Sepi-RS).
Apicultura: uma atividade complementar vital
Nesse cenário de valorização cultural e econômica, a apicultura surge como uma atividade complementar de grande importância. Na propriedade de Elio Pieri Primo, na Linha Vitória, a harmonia entre 2,5 hectares de erva-mate, 1,5 hectare de eucalipto e cerca de 45 colmeias (com e sem ferrão) é a prova viva dessa integração. O filho de Elio, Mauricio Pieri, conhecido como “Buiu”, ressalta a importância de cada componente do sistema agroecológico. “Cada atividade tem sua importância e ajuda a propriedade a se manter”, afirma o produtor, cuja propriedade gerou mais de seis toneladas de mel nos últimos três anos.
Sustentabilidade e o papel dos polinizadores
A presença das abelhas nos ervais vai muito além da produção de mel. Esses insetos são essenciais para a polinização, processo vital para a reprodução de diversas espécies vegetais e a formação de frutos e sementes. Pesquisas da Embrapa, por exemplo, demonstram a presença de vários insetos nas inflorescências da erva-mate, com os himenópteros — grupo que inclui as abelhas — em destaque. Maurel Behling, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril, aponta que a integração entre apicultura e plantios florestais de eucalipto é uma prática promissora, onde o baixo uso de insumos agrícolas favorece a atividade das abelhas, especialmente em áreas certificadas com restrições a produtos prejudiciais aos polinizadores. Essa diversidade de espécies e a cultura da erva-mate em consórcio com árvores nativas criam um ambiente rico, oferecendo múltiplas fontes de alimento para os polinizadores e contribuindo diretamente para a biodiversidade, como destaca o agrônomo Ilvandro Barreto de Melo, da Emater-RS/Ascar.
O impacto da Indicação Geográfica na produção
A robustez da cadeia da erva-mate é reforçada por números significativos. Ilvandro Barreto de Melo, agrônomo da Emater-RS/Ascar, destaca que a atividade envolve cerca de 14 mil produtores, 250 indústrias de processamento e uma área comercial de 36 mil hectares. A expectativa é que o consumo per capita no Brasil chegue a dez quilos por pessoa este ano, e que o Rio Grande do Sul seja responsável por aproximadamente 77% das exportações brasileiras. Em Machadinho, a variedade Cambona 4, desenvolvida localmente, exemplifica a busca por qualidade e produtividade. Para produtores como Alcir da Fonseca, conhecido como "Barbaquá Machadinho" e vencedor da competição de erva-mate na 49ª Expointer, a Indicação Geográfica (IG) transformou a maneira de conduzir o cultivo. “A Indicação Geográfica mudou a organização. Hoje existe uma preocupação maior com a origem, com o uso dos produtos e com a forma como o erval é conduzido”, relata Alcir, que mantém árvores nativas em seus 11 hectares de erval, promovendo a fauna e a qualidade de sua produção.
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