Encontro em Goiânia aborda gestão e sucessão para garantir o futuro das fazendas
Evento "AR Para Quem Produz" reunirá produtores rurais e seus herdeiros em outubro de 2026 para discutir a profissionalização da gestão e a transição geracional nas propriedades, abordando desde finanças até o aspecto emocional da sucessão.

Divulgação
A tranquilidade de uma boa colheita e a eficiência no manejo da terra podem não ser suficientes para assegurar que uma propriedade rural prospere e chegue às próximas gerações. Muitos produtores ainda gerenciam suas finanças de forma rudimentar, com anotações em cadernos, e enfrentam dificuldades em determinar com exatidão a margem de lucro de suas safras. É justamente essa lacuna na gestão que o evento "AR Para Quem Produz" pretende preencher. Marcado para os dias 1º e 2 de outubro de 2026, na Villa Cavalcare, em Goiânia (GO), o encontro tem capacidade para 100 participantes e visa congregar produtores que construíram seus negócios e os filhos que se preparam para assumir essa responsabilidade.
A dívida como sintoma de problemas de gestão
A iniciativa, idealizada pelo advogado Arthur Rodrigues, que atua na defesa de produtores rurais, nasceu da observação direta das dificuldades enfrentadas pelo setor. Rodrigues entende que o endividamento, que aflige parte dos produtores, é um sintoma, e não a causa raiz dos problemas. Para ele, a origem do endividamento reside na forma como as propriedades são administradas. Ele argumenta que, há cerca de duas décadas, margens de lucro mais generosas permitiam que o foco fosse predominantemente na produção. Contudo, com o aumento da concorrência, a elevação dos custos e um mercado mais exigente, a realidade mudou. Atualmente, o sucesso financeiro de uma propriedade depende intrinsecamente da capacidade de interpretar demonstrações financeiras, como a DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), de alinhar o crédito à real capacidade produtiva e de identificar precisamente onde os recursos estão sendo dissipados.
Números recentes e políticas de renegociação no cenário rural
Os dados recentes reforçam a necessidade de uma gestão mais apurada. Um levantamento da Serasa Experian indicou que a inadimplência no meio rural atingiu 8,8% no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025. Este indicador, que abrange dívidas com empresas ligadas ao agronegócio vencidas há mais de 180 dias e considera uma base de 10,7 milhões de pessoas físicas, tem apresentado uma tendência de alta desde o início de 2025, quando registrava 7,6%. Na região Centro-Oeste, a taxa de inadimplência chegou a 10,1%. Observa-se que a faixa etária de 30 a 39 anos concentra o maior percentual de endividados, com 13,6%, com os índices diminuindo progressivamente a partir dos 50 anos. Em paralelo, a Medida Provisória (MP) 1.376, publicada em 15 de julho, autorizou linhas de crédito para a quitação ou amortização de dívidas rurais para produtores que sofreram perdas entre 2019 e 2025, com prazo de contratação até 12 de novembro. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), até setembro, as operações já somavam R$ 3,6 bilhões. Embora a renegociação de passivos seja crucial, a questão que o encontro em Goiânia busca responder é como garantir a rentabilidade da propriedade nos ciclos vindouros.
A sucessão geracional e o peso da responsabilidade familiar
Além dos aspectos financeiros, Arthur Rodrigues destaca um componente emocional frequentemente negligenciado: a dificuldade do produtor em compartilhar suas preocupações com a família. Ele observa um receio generalizado de não corresponder às expectativas, de desvalorizar o legado dos pais e avós, e de não conseguir transferir a fazenda em boas condições para os filhos. Muitas vezes, a família permanece alheia a essas angústias, pois o assunto é evitado pelo medo de ter que alterar o padrão de vida. Rodrigues defende que a preservação do padrão de vida é possível através da gestão profissionalizada da fazenda, e que buscar ajuda é um ato de coragem. A urgência da sucessão é ainda mais evidente diante do envelhecimento da força de trabalho no campo. Dados do Censo Agropecuário de 2017 indicam um aumento significativo na participação de produtores com 65 anos ou mais, enquanto a faixa etária de 25 a 35 anos viu sua representatividade diminuir. Goiás, em particular, registrou um avanço expressivo na faixa etária acima de 65 anos. Em um cenário onde a maioria dos estabelecimentos agropecuários é classificada como agricultura familiar, o negócio e o patrimônio familiar se entrelaçam, tornando a transição geracional um ponto crítico para a continuidade.
O que o produtor precisa aprender a olhar para o futuro
O evento propõe um método de quatro etapas: coletar dados, analisá-los, interpretá-los e tomar decisões embasadas. Isso significa ir além das respostas que um simples caderno de anotações pode oferecer. Questões como a real necessidade de crédito e sua compatibilidade com a capacidade produtiva, as oportunidades de melhoria da margem líquida através de compras mais estratégicas, a identificação de créditos ou impostos pagos indevidamente, o potencial de agregação de valor aos produtos, e a gestão de riscos ambientais, trabalhistas e sucessórios serão abordadas. O primeiro dia, intitulado "O que construímos até aqui", contará com palestras sobre gestão, família, legado e sucessão, além de marca e posicionamento. Um painel reunirá especialistas para discutir os pilares que sustentam o que foi construído, integrando produção, gestão empresarial, finanças e tributos, e apresentando um relato de experiência real de sucessão. O segundo dia, "O que precisa permanecer", focará na gestão da fazenda como empresa, abordando método, casos e resultados, além de cultura e pessoas. Ao longo da programação, momentos de "Pausas de Decisão" incentivarão os participantes a refletirem e a registrarem escolhas práticas para suas propriedades. A dimensão da fé também permeará o encontro, com momentos de oração, música e partilha, reconhecendo a importância da crença para o produtor rural, que investe recursos significativos sem garantia de retorno, dependendo de fatores como clima e mercado. A mensagem central é que o futuro do negócio rural se constrói quando o produtor decide pensar além da atividade produtiva imediata.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








