Empresas de alimentos deixam de monitorar riscos climáticos ao abastecimento, aponta estudo
Ferramentas usadas por empresas de alimentos avaliam apenas parte dos riscos climáticos que afetam a produção agrícola. Modelos deixam de lado eventos como tempestades, incêndios, pragas e fenômenos simultâneos, dificultando investimentos em prevenção e aumentando a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento.

Divulgação
Empresas do setor de alimentos continuam vulneráveis a eventos climáticos capazes de interromper cadeias de abastecimento e comprometer a produção agrícola. Um estudo da Food and Land Use Coalition (FOLU), desenvolvido com a Systemiq e o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), alerta que as principais ferramentas de avaliação usadas pelo setor ainda ignoram parte significativa desses riscos.
Modelos reconhecem apenas uma parte das ameaças
A análise considerou instrumentos utilizados para estimar os efeitos das mudanças climáticas sobre cultivos agrícolas, especialmente oleaginosas como a soja. Secas e ondas de calor aparecem apenas parcialmente nos modelos, enquanto tempestades, ciclones, tornados, incêndios florestais, pragas e doenças recebem pouca ou nenhuma consideração.
Também ficam fora das projeções fatores como degradação do solo, granizo, inundação costeira, redução da qualidade da água e elevação do nível do mar. Essa visão limitada pode subestimar perdas futuras e dificultar o planejamento de empresas que dependem de commodities agrícolas para manter seus produtos nas prateleiras.
Outro problema é a premissa de que os eventos climáticos ocorrem de forma isolada. Na prática, as mudanças climáticas aumentam a chance de diferentes regiões produtoras serem atingidas ao mesmo tempo. Quando isso acontece, as empresas têm menos alternativas para trocar de fornecedores ou substituir culturas após uma quebra de safra.
Impactos climáticos já aparecem no Brasil
O estudo cita a seca de 2021 e 2022 no Rio Grande do Sul, que reduziu em mais da metade a produção estadual de soja. Também menciona os incêndios recordes registrados em 2024, que, segundo estimativa do Estado de Goiás, causaram R$ 181,71 milhões em perdas de produção.
Falta de dados desestimula investimentos preventivos
A ausência de medições mais completas afeta diretamente as decisões de investimento. Gastos com solos mais saudáveis, sistemas eficientes de água e métodos agrícolas resilientes podem ser tratados como custos opcionais de sustentabilidade, e não como medidas para evitar prejuízos maiores no futuro.
O levantamento registra que fornecedores apoiados na adoção de práticas regenerativas conseguiram manter a produção durante uma seca na Espanha, em 2022, enquanto concorrentes não obtiveram o produto. O retorno econômico foi percebido, mas não poderia ser previsto adequadamente pelas ferramentas atuais de análise de risco e retorno.
Recursos privados ainda estão abaixo da necessidade
Segundo a FOLU, o setor privado poderia aportar cerca de US$ 630 bilhões por ano nos sistemas alimentares, mas apenas aproximadamente US$ 19 bilhões são direcionados atualmente à resiliência climática. A necessidade anual é estimada em US$ 1,1 trilhão.
A próxima etapa dos trabalhos será um relatório sobre o corredor de soja entre Brasil e China, previsto para janeiro de 2027. O estudo deverá estimar perdas evitáveis, retornos de investimentos em resiliência e formas de distribuir custos e benefícios entre os agentes da cadeia.
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