Ar seco do El Niño volta a ameaçar peixes e anfíbios da Amazônia
O fortalecimento do El Niño aumenta o risco de seca, calor e baixa umidade na Amazônia, condições que prejudicam a respiração e a hidratação de anfíbios e de espécies aquáticas adaptadas a ambientes úmidos.

Divulgação
O fortalecimento do El Niño em 2026 aumenta o risco de estiagens mais severas, rios com menos água e temperaturas elevadas na Amazônia. O fenômeno climático tem mais de 90% de chance de se tornar muito forte nos próximos meses, criando novas preocupações para a biodiversidade e para as populações que dependem dos recursos naturais da região.
Em Manaus, agosto registrou calor intenso, pouca chuva e baixa umidade relativa do ar. No dia 31, a temperatura chegou a 37,3 °C, enquanto em 10 de agosto o Inmet mediu 41%, o menor valor do ano na cidade. Condições assim reforçam os impactos observados durante a seca extrema de 2023 e 2024, quando houve mortalidade de peixes, botos-cor-de-rosa e outras espécies.
Ar seco prejudica a respiração pela pele
Anfíbios como sapos, rãs e pererecas estão entre os animais mais vulneráveis. Eles possuem pele fina, permeável e rica em vasos sanguíneos, utilizada para absorver água, controlar sais e realizar parte das trocas de oxigênio e gás carbônico.
Uma camada de muco mantém a superfície do corpo úmida e ajuda na respiração. Quando a umidade relativa do ar cai, a evaporação se intensifica. O animal perde água com mais rapidez, sofre desidratação e pode ter o equilíbrio entre líquidos e sais comprometido. A menor eficiência nas trocas gasosas também dificulta a eliminação de gás carbônico.
Para reduzir esses efeitos, os anfíbios procuram áreas mais frescas e úmidas. Muitos conseguem recuperar parte da água perdida pelo contato do ventre com solo molhado, folhas e outros substratos. Quando esses ambientes secam, however, deixam de funcionar como refúgios e podem acelerar a perda de água.
Peixes enfrentam desafios quando a água desaparece
O risco também atinge espécies de peixes capazes de permanecer temporariamente fora d’água. Algumas famílias, como a Rivulidae, conseguem sobreviver por horas sobre folhas ou superfícies úmidas. Nesses momentos, a pele pode ajudar nas trocas gasosas, especialmente em poças rasas, locais com pouco oxigênio ou ambientes que secam periodicamente.
Com o ar mais seco, o tempo de sobrevivência fora da água pode diminuir. A pele perde umidade mais depressa, e a falta de superfícies adequadas reduz a capacidade de o animal se manter hidratado. Uma mudança aparentemente pequena na atmosfera pode, portanto, representar uma ameaça relevante para espécies adaptadas a condições específicas.
Calor e estiagem agravam a falta de oxigênio
A baixa umidade do ar é apenas uma parte do problema. A redução das chuvas e o aumento da evaporação diminuem o volume de rios, lagos e igarapés. Ao mesmo tempo, a água restante aquece e passa a carregar menos oxigênio dissolvido, dificultando a respiração de peixes e outros organismos aquáticos.
O ressecamento da vegetação também favorece a propagação de incêndios. Fogo, fumaça e cinzas podem atingir corpos d’água, enquanto a destruição de matas reduz áreas de sombra e elimina abrigos úmidos essenciais para anfíbios e espécies terrestres. O resultado é uma combinação perigosa de calor, seca, perda de habitat e queda na qualidade da água.
Cientistas ainda investigam como ondas de calor e estiagens cada vez mais frequentes afetam a fauna amazônica em conjunto. O quadro exige monitoramento contínuo dos rios, da umidade e da biodiversidade, pois a sobrevivência de muitas espécies depende da manutenção de refúgios frescos e úmidos durante os períodos críticos de seca.
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