Vorcaro disse ter “amigos” dentro do Banco Central
A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro anotações nas quais ele afirma ter recebido informações confidenciais de funcionários do Banco Central sobre reuniões ligadas às investigações do Banco Master. Registros foram apagados e recuperados; a PF investiga possível vazamento de dados reservados.

Divulgação
A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, anotações nas quais o banqueiro afirma ter recebido informações confidenciais de “amigos” dentro do Banco Central. Segundo ele, essas pessoas teriam participado de reuniões sobre as investigações envolvendo a instituição financeira e, por isso, repassavam dados “100%” confiáveis.
Registros indicam acesso antecipado a informações
As anotações foram feitas em 30 de outubro de 2025, poucos dias depois de uma reunião sigilosa realizada em 17 de outubro entre autoridades do Banco Central e da Polícia Federal. Vorcaro escreveu que não poderia identificar as supostas fontes porque poucas pessoas estiveram nos encontros. Na avaliação registrada por ele, se o conteúdo chegasse a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, seria possível descobrir quem havia falado com o banqueiro.
Minutos antes, Vorcaro havia registrado que recebeu “informações informais e em confidência” de integrantes da autoridade monetária. Ele afirmou que Galípolo e outros diretores estavam sob pressão da Polícia Federal e do Ministério Público para adotar uma medida relacionada ao Banco Master. O banqueiro também anotou que pretendia encaminhar nomes de agentes que, segundo as informações recebidas, teriam estado no BC para tratar do caso.
PF investiga possível vazamento de dados reservados
Entre os nomes citados por Vorcaro estavam servidores e agentes ligados às investigações, incluindo Dennis Cali, Wilker Goulart, Guilherme Alves de Siqueira, Janaína e Daniel de Brito, além de Ubiratan, Gabriel Pimenta e Guilherme. O banqueiro escreveu que não questionava o trabalho de investigação ou as auditorias do Banco Central, mas contestava a comunicação antecipada sobre uma possível medida contra ele.
A Polícia Federal identificou que Vorcaro possuía informações sobre participantes do encontro sigiloso poucos dias depois de a reunião ter ocorrido. As anotações foram apagadas minutos após serem registradas, mas recuperadas durante a extração de dados do aparelho. Para os investigadores, a exclusão pode indicar uma tentativa de evitar a permanência de registros sobre a obtenção de informações confidenciais provenientes de servidores públicos. A conclusão depende, porém, da confirmação por outros elementos da investigação.
Relação com servidores é apurada separadamente
O relatório também examinou a proximidade entre Vorcaro e os servidores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, ambos ligados ao Departamento de Supervisão Bancária. Os dois participavam com o banqueiro de um grupo de WhatsApp chamado “Master” e, segundo a PF, teriam oferecido orientações, discutido estratégias, revisado documentos e compartilhado informações internas.
A PF ressalva que a anotação sobre os “amigos” não é suficiente para concluir que Vorcaro se referia especificamente a Paulo Sérgio ou Belline. As fontes mencionadas não foram identificadas nominalmente naquele registro, e a participação delas nas reuniões citadas pelo banqueiro ainda precisa ser demonstrada por outros meios de prova.
Mensagens antecedem a prisão do banqueiro
Na mesma sequência de registros, Vorcaro sugeriu que o interlocutor tratasse do assunto com o então diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele escreveu que era necessário evitar uma “sacanagem” cometida por subordinados e afirmou estar disponível para prestar esclarecimentos. As mensagens posteriormente identificaram o interlocutor como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Os registros foram feitos 18 dias antes da prisão de Vorcaro. O caso agora exige que os investigadores demonstrem a origem das informações, o caminho percorrido pelos dados e a eventual quebra de confidencialidade dentro do Banco Central. A existência das anotações sustenta a apuração sobre um possível vazamento, mas não estabelece, por si só, a identidade das fontes nem a responsabilidade individual dos servidores mencionados em linhas paralelas da investigação.
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