STF pró-Mendonça questiona agilidade do Pgr na anulação de decisão sobre sigilo
Ala favorável ao ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal critica a velocidade incomum com que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade de relatório que expõe trocas de mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, gerando tensão interna na corte e reacendendo disputas políticas.

Uma ala do Supremo Tribunal Federal (STF) alinhada ao ministro André Mendonça passou a contestar publicamente a celeridade com que o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, se manifestou na terça-feira (1º) para anular a decisão que derrubou o sigilo de um relatório envolvendo trocas de mensagens entre Alexandre de Moraes — presidente da corte — e o delegado Daniel Vorcaro.
O documento, composto por 218 páginas e fundamentado em investigações da Polícia Federal, teve seu sigilo quebrado no mesmo dia em que Gonet emitiu parecer pedindo a nulidade do ato. Para os críticos, a rapidez do PGR foi considerada atípica, uma vez que o posicionamento não abordou o mérito da decisão, mas sim questões técnicas e procedimentais levantadas por Mendonça. “Pareceu quase que uma Comissão de Constituição e Justiça analisando apenas aspectos formais”, avaliou um integrante do grupo pró-Mendonça.
Esse debate interno não se limitou ao STF. Fontes da Polícia Federal também teriam questionado a decisão, que, segundo eles, não levou em conta a profundidade das investigações que embasaram o relatório. A crítica ressalta uma divergência que transcende o aspecto jurídico, expondo uma divisão política latente no tribunal.
Choque de narrativas e o fantasma da Lava Jato
A controvérsia reacendeu tensões já existentes no STF, onde se formaram grupos distintos: um alinhado a Moraes e outro a Mendonça. Analistas destacam que a decisão do ministro, ao derrubar o sigilo, pode estar sendo interpretada como um movimento para reforçar seu posicionamento frente a críticas de parcialidade, especialmente após tentativas anteriores de afastar comparações com a Operação Lava Jato — que, segundo Mendonça, teriam sido evitadas com protocolos mais rígidos.
“Esse episódio mostra como o tom das críticas internas está aumentando, e isso acaba reabrindo velhas feridas”, afirmou uma fonte próxima ao tribunal. O clima de tensão entre os magistrados reflete, ainda, a polarização política do país, com alguns setores buscando vincular Moraes ao governo Lula e Mendonça a figuras como Flávio Bolsonaro, embora os ministros mantenham discurso de isenção técnica.
A burocracia como escudo (ou como alvo)
Mendonça, conhecido por sua postura cautelosa, adotou medidas para evitar que suas decisões fossem associadas à Lava Jato, como a implementação de procedimentos mais burocráticos. No entanto, a decisão sobre o sigilo do relatório — que expôs conversas privadas entre Moraes e um delegado — pode ter gerado o efeito contrário: ao invés de demonstrar rigor, reforçou a percepção de que o STF, mesmo com novas lideranças, continua a ser palco de disputas que vão além do Direito.



