Pesquisa relaciona solidão e telas ao afastamento de eleitores das urnas
Levantamento do Datafolha indica que eleitores sem vínculos comunitários votam menos, valorizam menos a democracia e dão menor importância à preservação ambiental. Jovens e pessoas mais expostas à rotina digital aparecem entre os grupos mais afetados.

Divulgação
O crescimento da abstenção eleitoral no Brasil, que ultrapassou 32 milhões de eleitores no último pleito presidencial, está relacionado à exaustão mental, à solidão e ao uso intensivo de telas. A avaliação faz parte do estudo Termômetro do Bem Viver, realizado pelo Datafolha em parceria com o projeto Desapocalíptica, da Avaaz, entre os dias 11 e 21 de novembro de 2025.
Eleitores sem vínculos comunitários participam menos
A pesquisa classificou os internautas em três perfis: vinculados, relativamente vinculados e desvinculados. Os primeiros representam 29,4% da amostra, enquanto os desvinculados correspondem a 6,6%. Entre estes, 47% afirmaram ter deixado de votar ou votam raramente. Outros 27% deram nota zero à frequência às urnas, sinal de afastamento mais profundo do processo eleitoral.
O comportamento é bem diferente entre os eleitores com forte conexão comunitária. Nesse grupo, 94% declararam ter comparecido e votado nas últimas eleições. A ruptura dos laços coletivos é mais frequente entre os jovens: 44% dos entrevistados de 18 a 34 anos estão na categoria dos desvinculados. Entre os vinculados, 78,3% têm 35 anos ou mais.
Apoio à democracia cai entre os mais isolados
O distanciamento das urnas aparece acompanhado de menor adesão ao regime democrático. Enquanto 79% dos eleitores vinculados consideram a democracia um valor inegociável, apenas 30% dos desvinculados compartilham essa avaliação. Entre os mais isolados, 25% admitem abrir mão da democracia em favor de um governo alinhado aos seus valores individuais, e 22% disseram não saber responder.
Os números não estabelecem uma relação de causa e efeito direta, mas indicam que o isolamento social pode reduzir o sentimento de pertencimento às instituições. Para parte dos entrevistados, a participação política deixa de ser vista como uma prática coletiva e passa a ser tratada como uma escolha individual, condicionada à conveniência ou à identificação imediata com determinados governantes.
Meio ambiente perde importância na escolha do voto
A preservação ambiental também tem menor peso entre os eleitores desvinculados. Segundo o levantamento, 55% desse grupo apresenta traços de negacionismo em relação à crise climática, e 80% afirma que a defesa da natureza influencia pouco ou nada na escolha de um candidato. Entre os eleitores vinculados, 91% consideram a conservação ambiental um critério prioritário no voto.
Rotina digital reduz espaços de convivência
O uso de telas ocupa parcela crescente do tempo livre, especialmente entre os mais jovens. Entre os entrevistados de 18 a 24 anos, 24% disseram passar a maior parte do tempo disponível em redes sociais e dispositivos, proporção duas vezes maior que a registrada entre adultos de 45 a 54 anos, que foi de 12%.
O afastamento de áreas verdes reforça esse cenário. Cerca de 81% dos desvinculados deram notas de 0 a 4 para a frequência em parques, praças e outros espaços naturais na semana anterior à entrevista. A rotina urbana e a insegurança pública foram apontadas como obstáculos. Além disso, apenas 15% dos desvinculados acreditam que suas ações podem produzir impacto positivo na sociedade, contra 86% dos vinculados.
Voto passa a ser visto como redução de danos
Os grupos focais ouvidos na etapa qualitativa mostraram que muitos eleitores comparecem às urnas por motivos defensivos. Alguns votam para evitar retrocessos sociais e políticos, enquanto outros buscam impedir o cancelamento de documentos, como o título de eleitor e o CPF. A participação, portanto, passa a ser motivada mais pela prevenção de perdas do que pelo sentimento de integração à vida pública.
O relatório aponta que medidas capazes de alterar a rotina de trabalho, como o fim da escala 6 x 1, e a regulação de plataformas digitais podem ajudar a reaproximar os cidadãos da política. A pesquisa quantitativa ouviu 2.002 eleitores de 18 anos ou mais, por internet, em todas as regiões do país. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com 95% de confiança.
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