Lula diz na ONU que Brasil não cabe no quintal de ninguém
Durante a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania nacional, criticou guerras e tarifas, e pediu reforma da ONU e do Conselho de Segurança. Lula também falou sobre big techs, inteligência artificial, Gaza, Cuba, bets e eleições brasileiras.

Divulgação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York. Em uma fala marcada pela defesa da soberania nacional e do multilateralismo, Lula afirmou que o Brasil não aceita imposições externas e declarou: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Com um pronunciamento de 21 minutos e 49 segundos, o presidente abordou temas que vão da guerra em Gaza à reforma das instituições internacionais. Ele citou as eleições brasileiras, realizadas em 4 de outubro, e voltou a defender que decisões estratégicas do país devem ser tomadas pelo próprio povo brasileiro, sem interferência de governos estrangeiros ou grupos econômicos internacionais.
Críticas à ONU e ao Conselho de Segurança
Lula classificou o momento como um dos mais críticos da história recente da ONU. Na avaliação do presidente, a organização tem falhado em uma de suas missões centrais: livrar a humanidade do flagelo da guerra. Ele também criticou o Conselho de Segurança, afirmando que o órgão não cumpre seu papel com a força necessária para proteger populações vulneráveis e impedir o avanço de conflitos.
A fala reforça a defesa brasileira por uma reforma profunda na ONU, especialmente no Conselho de Segurança. Para Lula, a estrutura atual não representa de forma equilibrada o mundo contemporâneo e precisa ser atualizada para ampliar a participação de países em desenvolvimento e dar mais legitimidade às decisões internacionais. O presidente também criticou a atuação de Israel em Gaza e defendeu o multilateralismo como caminho para enfrentar crises globais.
Gaza, tarifas e soberania
O presidente também criticou as ações de Israel em Gaza e defendeu a proteção de civis, o respeito ao direito internacional humanitário e uma solução política para o conflito. Na agenda da viagem, o Brasil participa de encontros sobre a situação da Palestina e a solução de dois Estados, tema tratado como central para a estabilidade no Oriente Médio.
Na área econômica, Lula alertou para o uso de tarifas como instrumento de pressão entre países. Ele afirmou que a Organização Mundial do Comércio “respira por aparelhos” e que tarifas usadas como arma ou chantagem podem ter consequências nefastas para o comércio global. A mensagem reforça a preocupação do governo brasileiro com o aumento do protecionismo e com os impactos sobre economias emergentes.
Big techs, inteligência artificial e bets
Lula também voltou sua crítica às big techs e à inteligência artificial. Para o presidente, é uma omissão histórica não enfrentar a regulação dessas empresas e das novas tecnologias. Ele afirmou que um pequeno grupo de “tecnoligarcas” busca ressuscitar uma versão de neoliberalismo sem regras, concentrando poder, dados e influência sobre sociedades e governos.
O presidente também tratou das bets, dizendo que o Brasil não vai tolerar esse tipo de negócio quando ele coloca em risco famílias, jovens e a ordem econômica. A declaração ocorre em um contexto de maior cobrança por regras para o setor de apostas no país, especialmente diante dos impactos sociais associados ao endividamento e à publicidade agressiva.
Cuba e agenda internacional do Brasil
Ao tratar de Cuba, Lula defendeu o fim do embargo econômico, classificando a medida como ilegal. A posição brasileira reitera a defesa histórica do país pelo diálogo e pela normalização das relações internacionais, em oposição a bloqueios unilaterais.
Esta foi a 11ª participação de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU como presidente da República. Ele já havia discursado em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025. Em 2005, participou de reunião de alto nível, mas não abriu o debate geral; em 2010, não viajou a Nova York, e Celso Amorim falou em seu lugar.
A viagem presidencial foi curta. Lula chegou a Nova York no domingo, 20 de setembro, e tinha retorno previsto para esta terça-feira, após o discurso. Antes da Assembleia, cumpriu reuniões bilaterais, incluindo encontro com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e também tem agenda com o secretário-geral da ONU, António Guterres. A comitiva brasileira ainda participa de atividades sobre desigualdade, consolidação da paz, direito internacional humanitário, Zopacas e a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
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