Karina Gama diz que não será o “novo Mauro Cid”
Produtora do filme “Dark Horse” nega irregularidades, afirma que não possui informações capazes de incriminar terceiros e diz sentir pressão para apresentar uma versão dos fatos. Investigações no STF apuram a origem dos recursos usados na produção.

Divulgação
Karina Gama, produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL), afirmou que se sente pressionada a fazer uma delação premiada, mas negou possuir informações capazes de incriminar qualquer pessoa. Ela rejeitou a comparação com Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente que se tornou colaborador em investigações.
Pressão por uma delação
Karina foi alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (10 de setembro de 2026). A ação integra a apuração sobre possíveis desvios de emendas parlamentares destinados à produção do filme. A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em entrevista, a produtora negou a existência de irregularidades nos contratos firmados e destacou que os documentos possuem cláusulas de sigilo e confidencialidade. Segundo ela, um advogado procurou a produtora oferecendo apoio jurídico, afirmou ter boas relações no STF e se colocou à disposição para auxiliá-la em uma eventual delação premiada.
Karina também contou que um pastor amigo mencionou posteriormente a possibilidade de colaborar com a Justiça. Ao ser questionada se Michelle Bolsonaro (PL) teria sido citada entre pessoas às quais ele teria acesso, ela confirmou que nomes foram mencionados, mas afirmou não poder revelá-los.
A produtora disse temer que sua trajetória pessoal seja explorada caso não apresente uma versão considerada satisfatória por terceiros. “Eu não estou falando do projeto, eu tenho de falar o que querem ouvir”, declarou. Ainda assim, sustentou que tudo o que fez foi produzir um filme e que não participou de atos capazes de incriminar outras pessoas.
Karina afirmou que pretende colaborar com as autoridades dentro dos procedimentos legais. Segundo ela, a cooperação deve ocorrer com respeito ao direito de defesa e aos limites previstos na legislação. “Essa é a minha função: contribuir com as autoridades”, disse.
Origem dos recursos
Sobre o financiamento de “Dark Horse”, Karina afirmou que o investidor do projeto sempre foi, do ponto de vista da produtora, o fundo Havengate. Ela negou ter recebido dinheiro diretamente de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e disse não ter havido relação entre sua empresa e negócios ligados ao banqueiro.
Questionada se recursos de Vorcaro teriam chegado ao fundo, Karina confirmou a informação. Segundo ela, somente tomou conhecimento, por meio da imprensa, de qual empresa teria investido no Havengate, pois a gestão financeira não fazia parte de suas responsabilidades contratuais.
A produtora explicou que não participava da administração do fundo. Sua função, segundo Karina, era executar a produção após a aprovação do projeto e do orçamento. “Eu nunca participei do fundo e não era o meu papel. O meu papel ali era contratada do fundo”, afirmou.
Duas investigações no STF
Existem dois inquéritos no STF sobre o financiamento de “Dark Horse”. Um deles investiga fraudes relacionadas ao Banco Master e está sob a condução do ministro André Mendonça. A apuração utiliza dados da Operação Compliance Zero, informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e elementos encontrados no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição.
A Polícia Federal identificou um contrato que previa US$ 24 milhões para a produção, inicialmente chamada de “Capitão do Povo”. Em 2025, US$ 12,3 milhões foram enviados pela Entre Investimentos ao Havengate Development Fund, registrado nos Estados Unidos. Os valores e as datas das transferências são semelhantes às parcelas previstas no acordo de financiamento.
Conforme a investigação, mensagens e registros apreendidos indicam tratativas envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), Eduardo Bolsonaro (PL), o deputado Mario Frias (PL-SP) e outros intermediários. A PF afirma que Flávio manteve contato direto com Vorcaro, participou de reuniões e cobrou pagamentos relacionados ao projeto. A apuração busca esclarecer a origem do dinheiro, o caminho percorrido pelos recursos, os beneficiários finais e a eventual existência de contrapartidas.
A Procuradoria-Geral da República informou haver elementos preliminares para investigar possíveis crimes de corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A pasta também determinou a busca por proposições de Flávio Bolsonaro e Mario Frias no Congresso que pudessem apresentar interesse para o Banco Master ou para Vorcaro.
O outro inquérito, relatado por Flávio Dino, examina possíveis irregularidades no uso de emendas parlamentares. A apuração acompanha um fluxo que começa em R$ 2 milhões destinados por Mario Frias e alcança empresas relacionadas à Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”. Frias, que também atua como produtor-executivo do filme, está entre os alvos da Operação Make Up.
As investigações procuram estabelecer se houve desvio ou ocultação de recursos públicos, irregularidades no financiamento privado e conexão entre os dois fluxos de dinheiro. Até o momento, as declarações de Karina Gama e os dados levantados pela Polícia Federal fazem parte de apurações destinadas a confirmar ou afastar essas suspeitas.
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