Crise no STF se aprofunda com divergências sobre o caso Banco Master
Ministros do STF divergem sobre sigilo, acesso a documentos e dados do celular de Daniel Vorcaro antes da sessão que analisará a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes. André Mendonça liberou 39 processos, enquanto Moraes contesta a forma da divulgação e Gilmar Mendes pede o adiamento da sessão extraordinária.
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novo capítulo nas vésperas da sessão extraordinária marcada para terça-feira (15). A pauta central será a decisão sobre a abertura de investigação formal contra Alexandre de Moraes por causa de uma suposta relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. As divergências, porém, se ampliaram para o tratamento do sigilo, a divulgação de provas e o acesso dos ministros às informações produzidas nas investigações.
Mendonça amplia acesso a processos sob sigilo
André Mendonça determinou, na noite de sexta-feira (11), o levantamento do sigilo de 39 processos que tramitam no STF. A Procuradoria-Geral da República havia pedido inicialmente a liberação de 18 deles, mas o ministro incluiu outros 21 procedimentos por iniciativa própria. A decisão ocorreu após cobranças do presidente da Corte, Edson Fachin, por maior transparência nos casos em andamento.
Entre os processos liberados está a investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, na qual Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro aparecem como alvos. Também passaram a ter informações públicas procedimentos relacionados ao senador Ciro Nogueira, a Jaques Wagner e a apurações diretamente ligadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
No núcleo das investigações sobre o banco, já haviam sido disponibilizados documentos com diálogos atribuídos a Vorcaro e Alexandre de Moraes. O material está sob análise do Supremo e integra o debate sobre a necessidade de investigar formalmente o ministro.
PF investiga possível vazamento da operação
Informações produzidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro pode ter tido conhecimento prévio da Operação Compliance Zero. O ex-banqueiro foi preso em novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando pretendia embarcar para Malta na véspera do cumprimento dos mandados. Os investigadores consideraram improvável que a tentativa de deixar o país naquela data fosse uma coincidência e passaram a apurar se dados sigilosos chegaram antecipadamente ao empresário.
Os documentos também registraram contatos de Vorcaro com autoridades e integrantes de diferentes instituições. Essas informações deram origem a novas frentes de investigação e aumentaram a pressão por acesso amplo aos autos dentro do STF.
Outro documento trouxe uma suspeita da Polícia Federal envolvendo o ministro Dias Toffoli. A apuração policial levantou a hipótese de que ele poderia ser o beneficiário final do fundo de investimentos Arleen, que teria recebido R$ 35 milhões de Vorcaro. Ativos do fundo teriam sido transferidos posteriormente para uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas. O gabinete de Toffoli nega que o ministro mantenha recursos no exterior e rejeita qualquer irregularidade. A suspeita ainda não significa responsabilização formal nem comprovação da hipótese.
Moraes acusa Mendonça de divulgação seletiva
Alexandre de Moraes reagiu à primeira etapa de liberação dos documentos e pediu a Fachin o levantamento integral do sigilo de todo o material relacionado ao Banco Master. Em ofício, acusou Mendonça de fazer uma “escolha seletiva” das informações e afirmou que cerca de 180 documentos continuavam indisponíveis para consulta. Moraes sustentou que a determinação para dar publicidade ao caso não havia sido cumprida integralmente.
Mendonça rejeitou a acusação. Para ele, eventuais diferenças entre a quantidade de documentos cadastrados no sistema do STF e o material disponibilizado não demonstram seleção deliberada de conteúdo. Após a divergência pública entre os dois ministros, determinou a liberação dos 39 processos.
Zanin pede acesso integral aos dados do celular
Cristiano Zanin também pediu que todos os ministros recebam acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro. O aparelho foi apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero e originou parte do material que menciona Moraes e outras autoridades. Mendonça informou que o equipamento original permanece com a Polícia Federal e que seu gabinete recebeu apenas uma cópia de segurança em um HD entregue pela PF dentro de envelope lacrado.
Zanin defendeu que a preservação da cadeia de custódia do aparelho não impede o compartilhamento da cópia já existente com os demais integrantes da Corte. Para o ministro, o acesso completo será indispensável para examinar o processo que será discutido na sessão extraordinária.
Gilmar Mendes pede adiamento da sessão
Gilmar Mendes, ministro mais antigo do STF, solicitou a Edson Fachin o adiamento da sessão marcada para terça-feira. O pedido do decano ocorre em um ambiente de disputas sobre o ritmo dos trabalhos, o alcance da publicidade e a igualdade de acesso dos ministros às provas.
O desfecho do impasse poderá definir não apenas o rito do processo envolvendo Alexandre de Moraes, mas também os parâmetros para a divulgação de documentos sigilosos e a condução de investigações que atingem autoridades no interior da própria Corte.
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