Museu do Holocausto rebate jovem que criticou “o Diário de Anne Frank”
Instituição respondeu à repercussão de uma fala feita durante a Bienal do Livro de São Paulo. Museu destacou que relatos de vítimas não precisam seguir uma narrativa confortável ou inspiradora.

Divulgação
O Museu do Holocausto se manifestou na quarta-feira (16) sobre a repercussão de um vídeo em que uma jovem classificou O Diário de Anne Frank como um dos piores livros que leu durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A gravação, feita dois dias antes no evento, reacendeu discussões sobre memória, Holocausto e a forma como relatos de vítimas são interpretados.
No vídeo, uma influenciadora pergunta a uma frequentadora da Bienal quais obras ela considerava as melhores e as piores. A jovem cita Além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche, como sua leitura preferida e escolhe o diário de Anne Frank como o livro que menos apreciou. Ao justificar a resposta, afirma que não gostou da obra por considerar que a adolescente “se vitimiza”.
Museu defende leitura contextualizada da obra
Em publicação no Instagram, o Museu do Holocausto afirmou que o diário deve ser compreendido dentro das circunstâncias em que foi escrito. A instituição destacou que relatos produzidos por pessoas submetidas à perseguição não precisam apresentar uma trajetória de superação ou transmitir uma imagem idealizada de seus autores.
“A vítima não deve ao leitor uma narrativa confortável. Às vezes, esperamos que uma vítima seja sempre serena, corajosa e inspiradora. Mas um diário pode não ser uma lição de superação. Nele cabem medo, raiva, tédio, contradições, desejos, conflitos familiares e vontade de viver”, afirmou a entidade.
A manifestação chama atenção para uma dimensão frequentemente ignorada em leituras superficiais da obra: o diário reúne observações cotidianas, conflitos pessoais e reflexões de uma adolescente que vivia escondida dos nazistas. O texto não foi concebido como uma mensagem inspiracional, mas como o registro íntimo de alguém que enfrentava medo constante, isolamento e incerteza sobre o futuro.
Quem foi Anne Frank
Anne Frank nasceu em 1929, em Frankfurt, na Alemanha. Judia, mudou-se com a família para Amsterdã após a ascensão do regime nazista ao poder. Durante a ocupação alemã da Holanda, passou a viver escondida com parentes e outras pessoas em um espaço secreto ligado ao escritório de Otto Frank, seu pai.
Aos 13 anos, Anne ganhou um diário e começou a registrar nele acontecimentos da vida cotidiana, relações familiares, sentimentos e pensamentos durante o período em que permaneceu clandestina. O grupo foi descoberto em agosto de 1944. Anne foi presa, deportada para campos de concentração e morreu em Bergen-Belsen em 1945, aos 15 anos.
Após a Segunda Guerra Mundial, Otto Frank, um dos poucos integrantes do grupo que sobreviveu, recuperou os escritos da filha. O Diário de Anne Frank foi publicado em 1947 e posteriormente traduzido para dezenas de idiomas. A obra se tornou um dos principais testemunhos sobre a perseguição aos judeus durante o Holocausto e segue sendo amplamente utilizada em escolas, museus e projetos de educação histórica.
A reação do Museu do Holocausto à crítica feita na Bienal reforça que obras memorialísticas não devem ser avaliadas apenas por critérios de entretenimento. No caso do diário de Anne Frank, o valor histórico também está nas fragilidades, contradições e emoções registradas por uma adolescente diante de uma das maiores tragédias do século 20.
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