BC eleva para 90% chance de IPCA superar teto da meta em 2026
Banco Central eleva para 90% o risco de o IPCA ultrapassar o teto da meta em 2026. Inflação projetada chega a 5,2%, enquanto a previsão de crescimento do PIB é reduzida para 1,8%.

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O Banco Central elevou para 90% a probabilidade de o IPCA superar o teto da meta de inflação em 2026. O risco era estimado em 79% na avaliação anterior, um avanço de 11 pontos percentuais que reforça a cautela da autoridade monetária diante da alta projetada dos preços e da demora das expectativas de longo prazo para retornar ao centro da meta.
O teto do intervalo de tolerância é de 4,50%, acima da meta central de 3,00%. Embora o IPCA acumulado em 12 meses tenha caído de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, o BC projeta alta para 5,2% até dezembro, resultado 0,7 ponto percentual acima do limite permitido.
Inflação atual esconde pressão para o fim do ano
A melhora recente do indicador foi influenciada por fatores temporários nos preços administrados. O bônus de Itaipu na conta de luz reduziu o IPCA em 0,34 ponto percentual em agosto, enquanto a bandeira tarifária amarela retirou outros 0,32 ponto percentual. Sem efeitos semelhantes, a tendência é de nova pressão sobre os preços no último trimestre.
A mediana da Pesquisa Focus para o IPCA de 2026 ficou em 4,90%, abaixo da estimativa do BC, mas ainda acima do teto da meta. Para 2027 e 2028, as projeções também permanecem acima do centro da meta, em 4,30% e 3,80%, respectivamente. Para 2027, a probabilidade de descumprimento do teto é de 33%.
Selic cai, mas política monetária segue restritiva
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, durante sua 281ª reunião. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, o BC considera que a política monetária segue contracionista. A Selic real, descontada a inflação esperada, permanece acima da taxa neutra estimada em 5,00%.
A decisão ocorre em um cenário de incertezas fiscais e expectativas desancoradas. O objetivo do BC é conduzir a inflação para perto da meta no horizonte relevante, definido como o primeiro trimestre de 2028, sem abandonar o controle dos riscos que podem manter os preços pressionados por mais tempo.
Atividade desacelera com consumo das famílias em queda
O Banco Central reduziu de 2,0% para 1,8% a projeção de crescimento do PIB em 2026. Para 2027, a estimativa é de alta de apenas 1,4%. O produto interno bruto cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de avançar 1,1% no primeiro, com a retração de 0,4% no consumo das famílias.
O comportamento do consumo mostra os efeitos do aperto monetário e da redução dos estímulos fiscais sobre a atividade. No mercado de trabalho, a desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em julho. A geração de vagas formais reached 52 mil por mês no trimestre até julho, mas o rendimento médio real habitual recuou 0,6% na comparação marginal.
Para o agronegócio, o relatório destaca os riscos associados a um possível El Niño intenso. Milho, algodão e arroz estão entre as culturas mais vulneráveis aos efeitos negativos do fenômeno climático. Na soja, o impacto deve variar conforme a região produtora, criando um fator adicional de incerteza para preços e produção.
Inadimplência atinge nível recorde
O percentual de operações com atraso superior a 90 dias no Sistema Financeiro Nacional subiu para 4,9% em julho, maior nível da série histórica. No crédito livre para pessoas físicas, a inadimplência chegou a 7,8%. No crédito rural direcionado a pessoas físicas, o índice alcançou 8,8%, também recorde.
As famílias destinavam 49,9% da renda disponível ao endividamento, enquanto o comprometimento com o serviço da dívida reached 28,9% em junho. Mesmo com esse quadro, o BC projeta expansão de 9,1% no saldo de crédito do sistema financeiro em 2026 e de 8,8% em 2027, indicando que o crédito deve continuar crescendo, embora sob maior risco de inadimplência.
Contas públicas permanecem como principal incerteza
O BC projeta déficit primário de R$ 52 bilhões para o Governo Central em 2026. Considerando exclusões legais de R$ 63 bilhões, o resultado seria superávit de R$ 11 bilhões pelo critério da meta fiscal. O déficit previsto aciona os mecanismos da Lei Complementar nº 235 de 2026 e deve reduzir gastos obrigatórios em aproximadamente R$ 9 bilhões no Orçamento de 2027.
As estimativas para o ano seguinte mostram divergência relevante. O projeto orçamentário prevê superávit primário de R$ 19 bilhões em 2027, enquanto o mercado trabalha com déficit de R$ 54 bilhões. Esse distanciamento evidencia a dificuldade de conciliar crescimento, controle da inflação e equilíbrio das contas públicas nos próximos anos.
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