BC atribui 40% da alta da inadimplência a nova regra contábil
Banco Central estima que parte relevante do aumento recente dos atrasos no Sistema Financeiro Nacional decorre da Resolução 4.966, do CMN. Indicador de operações com mais de 90 dias de atraso reached 4,9% em julho, enquanto crédito caro e renda mais fraca pressionam famílias e produtores.

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O Banco Central informou que cerca de 40% do aumento recente da inadimplência no Sistema Financeiro Nacional (SFN) está relacionado à implementação da Resolução 4.966, do Conselho Monetário Nacional (CMN). A estimativa indica que parte expressiva da alta não representa novos atrasos de pagamento, mas uma alteração na forma como as operações são classificadas pelos bancos.
Nova regra muda a leitura dos atrasos
A resolução estabeleceu critérios mais rigorosos para a classificação de ativos financeiros e o reconhecimento de perdas em operações de crédito. Com isso, instituições financeiras passaram a reclassificar determinadas carteiras e a constituir provisões maiores para operações renegociadas. O movimento eleva contabilmente a inadimplência registrada, mesmo quando não há uma deterioração equivalente no comportamento imediato dos clientes.
No relatório de setembro, o BC destacou que o percentual de operações com atraso superior a 90 dias chegou a 4,9% em julho de 2026, o nível mais alto da série histórica da autoridade monetária. A leitura dos dados exige cautela porque o resultado combina o efeito da nova regra com pressões econômicas reais sobre devedores.
Crédito mais caro pressiona as famílias
O Banco Central avalia que a Selic mantida em patamar contracionista por período prolongado elevou a taxa média das operações de crédito. Com dinheiro mais caro e critérios de concessão mais rígidos, empréstimos consignados e financiamentos de veículos perderam força. Ao mesmo tempo, famílias passaram a utilizar mais o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, modalidades normalmente associadas aos juros mais elevados.
O comprometimento da renda atingiu 28,9% em junho, maior resultado desde o início da série, em 2005. A dívida das famílias correspondeu a 49,9% da Renda Nacional Disponível Bruta. Na modalidade de crédito livre para pessoas físicas, a inadimplência ficou em 7,8%.
Inadimplência rural atinge recorde
No crédito rural direcionado para pessoas físicas, o índice de inadimplência chegou a 8,8%, novo recorde. O BC relaciona a pressão sobre produtores rurais aos custos financeiros elevados, a perdas pontuais em safras e à redução das margens no agronegócio. O cenário mostra que parte do setor enfrenta dificuldades para equilibrar custos de produção, serviço da dívida e receitas em queda.
Consumo perde força, mas emprego segue resiliente
O consumo das famílias recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026 em comparação com o primeiro, após alta de 1,1% no período anterior. Para o BC, a mudança reflete o fim do impulso temporário provocado pela antecipação de precatórios, pelo reajuste do salário mínimo e pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física. O rendimento médio real habitual caiu 0,6% no trimestre.
Apesar da perda de ritmo no consumo e do aumento das tensões no crédito, a taxa de desocupação permanece em 5,4%, menor nível da série histórica. O dado sustenta a renda dos households, mas ainda não foi suficiente para evitar a substituição de crédito mais barato por modalidades de custo elevado.
BC mantém projeção de expansão do crédito
A autoridade monetária projeta crescimento de 9,1% no saldo total de crédito do SFN em 2026, ligeiramente acima da estimativa anterior de 9,0%. Para 2027, a previsão é de alta de 8,8%. As projeções indicam expansão para pessoas físicas, pessoas jurídicas, crédito livre e crédito direcionado, embora o ritmo venha acompanhado de maior atenção à qualidade das carteiras e à capacidade de pagamento dos devedores.
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