Estudo do Unicef aponta que palmada ainda é vista como correção no Brasil
Pesquisa qualitativa com 214 pessoas em três capitais mostra que agressões físicas leves são frequentemente tratadas como educação, enquanto sobrecarga das mães, falta de apoio e medo da violência dificultam mudanças.

Divulgação
O estudo “É só uma palmada?”, realizado pelo Unicef, mostra que o castigo corporal contra crianças continua sendo interpretado por muitos adultos como uma forma legítima de corrigir comportamentos e ensinar respeito à autoridade. A pesquisa qualitativa ouviu 214 pessoas — mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção — no Rio de Janeiro, em Manaus e no Recife. Por trabalhar com grupos específicos, o levantamento revela percepções e mecanismos sociais, mas não mede a proporção do fenômeno em todo o país.
Entre correção e violência
Entre os participantes, agressões físicas consideradas “leves”, como tapas, beliscões e o uso de objetos, muitas vezes não são classificadas como violência. Elas são separadas do espancamento e recebem nomes que diminuem sua gravidade, como “tapinha”, “chineladinha” ou “coisa de educação”. Essa linguagem ajuda a normalizar a prática e a apresentá-la como parte da formação da criança.
As expressões variam conforme a região, mas repetem a mesma lógica: “chinelada”, “cinto”, “vara”, “peia” e “surra” aparecem como formas de descrever punições que, para quem as aplica, teriam finalidade educativa. A fronteira entre a palmada aceita e a agressão condenada, porém, é definida pelos próprios adultos e pode mudar de uma família para outra.
Sobrecarga e falta de repertório
O levantamento também aponta fatores que favorecem a repetição da violência. Muitos cuidadores dizem querer educar pelo diálogo, mas relatam não saber como lidar com birras, manhas e outros comportamentos comuns ao desenvolvimento infantil. A sobrecarga recai principalmente sobre as mães, enquanto a participação dos pais costuma ser mais pontual e associada à imposição de limites. Cansaço, estresse e ausência de apoio aumentam o risco de respostas impulsivas, seguidas de arrependimento.
Medo e silêncio nas comunidades
A criação dos filhos ainda é vista por parte dos entrevistados como um assunto privado. Essa percepção desencoraja vizinhos e parentes a intervir ou procurar ajuda, especialmente em comunidades onde há medo de retaliação. Em áreas afetadas pela violência armada, o controle rígido dentro de casa é reinterpretado como proteção contra tiros, polícia e ação do crime organizado.
Para a especialista em proteção à criança do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, as políticas públicas precisam reconhecer esse medo sem tratar a violência como solução. A saída, avalia, passa por oferecer apoio concreto às famílias e criar canais de orientação por meio de profissionais de confiança, como professores e agentes de saúde.
Lei existe, mas prevenção é insuficiente
A Lei Menino Bernardo (Lei nº 13.010/2014) proíbe o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes contra crianças. Ainda assim, o Unicef identifica baixa familiaridade com a norma e uma compreensão limitada de seu papel. Para parte das famílias, a legislação é vista como interferência do Estado na autonomia familiar, e não como uma proteção à infância.
O estudo critica a atuação predominantemente reativa de Conselhos Tutelares, escolas e unidades de saúde, acionados depois que a agressão já ocorreu. Entre as recomendações estão antecipar o apoio às famílias, fortalecer o programa 1ª Infância no Suas, capacitar visitadores domiciliares, definir responsabilidades compartilhadas entre saúde, educação, assistência social e Conselhos Tutelares e preparar melhor os profissionais que acompanham crianças e cuidadores.
O Unicef também observa que a prevenção da violência infantil tem pouco espaço nas propostas de candidatos à Presidência. Para a agência, mudar esse cenário exige combinar informação, serviços acessíveis e uma rede capaz de agir antes que o conflito familiar se transforme em agressão.
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