Safra menor de trigo no Brasil reduz oferta e pressiona preços
A produção brasileira de trigo deve cair 27% em relação ao ciclo anterior. Com menor disponibilidade e problemas de qualidade já elevaram as cotações no Paraná e no Rio Grande do Sul. Indústria projeta aumento das importações e possível reajuste no preço da farinha.

Divulgação
A safra brasileira de trigo de 2026 deve chegar a 5,74 milhões de toneladas, volume 27% inferior ao registrado no ciclo anterior, de acordo com projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A redução da oferta já influencia o mercado interno e altera a formação de preços em duas das principais regiões produtoras do país.
Desde julho, quando a Conab passou a indicar uma colheita menor, as cotações acumularam alta de 10,6% no Paraná e de 8,7% no Rio Grande do Sul, conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). O movimento ocorre em um período em que a entrada do trigo recém-colhido normalmente aumenta a disponibilidade do cereal e contribui para a queda das cotações.
Comportamento contrário ao esperado durante a colheita
Luiz Fernando Pacheco, diretor da TF Agroeconômica, destaca que o cenário atual difere do observado no ano anterior. Em setembro de 2025, os preços no Paraná estavam 5,69% abaixo dos registrados um mês antes. No Rio Grande do Sul, a redução chegava a 29,86%. Em 2026, a comparação foi inversa, com avanços de 8,49% e 7,41%, respectivamente.
A mudança revela que o volume disponível não é o único fator em jogo. Chuvas acima da média atingiram lavouras do Paraná, de São Paulo e de Minas Gerais. Em áreas já colhidas, foram registrados casos de giberela e bruzone, doenças causadas por fungos que prejudicam a qualidade do trigo, especialmente para uso na panificação.
Trigo de melhor qualidade passa a ser mais disputado
A preocupação com as características do produto já muda a postura de compradores e produtores. No Rio Grande do Sul, moinhos passaram a procurar estoques remanescentes da safra anterior. Produtores com trigo considerado adequado às especificações iniciais. O produto nacional.
Importações devem crescer
Com a produção doméstica em queda, o Brasil deve depender mais do mercado externo. A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) estima que as importações possam chegar a 9 milhões de toneladas nesta safra. A Conab trabalha com projeção menor, de 7,05 milhões de toneladas. Em 2025, os moinhos brasileiros adquiriram 6,1 milhões de toneladas no exterior.
A qualidade das safras do Paraguai e, principalmente, da Argentina, maior fornecedora do grão ao Brasil. No momento, 80% das lavouras argentinas são consideradas em boas condições, mas a intensidade das chuvas nos próximos meses poderá alterar esse quadro.
Para a indústria, a combinação de menor produção nacional, maior busca por trigo de melhor qualidade e possível elevação dos custos de importação deve pressionar os moinhos. Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo, avalia que a rentabilidade afetada poderá exigir reajustes no preço da farinha até o fim do ano. O avanço das cotações do cereal, portanto, já sinaliza desafios para a cadeia produtiva e possível impacto ao consumidor final.
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